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Setor3: Qual a estrutura do CNV, como funciona?
Marshall Rosenberg: Em cada país identificamos as pessoas que ressoam com esta proposta, que tenham a paixão para fazer com que a CNV seja disponibilizada para aquelas pessoas que têm maior possibilidade de transformar a cultura. Por exemplo, em Israel e na Palestina, os grupos acham que vão contribuir melhor para a paz educando de forma radicalmente diferente a próxima geração por isso tem um foco na educação. Os israelenses também queriam o envolvimento da polícia. Trabalhei com a polícia e as escolas. Então eu identifico as pessoas em cada país que tenham esta consciência e trabalho com cada país, cada grupo, para investigarmos juntos onde a gente acredita que a CNV pode melhor contribuir para o país neste momento. O meu preconceito é como se chega na mídia, a imprensa é o caminho. Estou trabalhando muito neste momento em como divulgar para o máximo de pessoas possíveis uma outra mídia, diferente da maneira como educamos as crianças nos Estados Unidos. Como a gente pode chegar às pessoas que usam mais a mídia em horários estratégicos quando, por exemplo, à noite, na televisão, em 70% dos programas o herói é o ladrão ou o assassino. E esse momento de violência ou corrupção acontece exatamente no clímax, no ponto alto, e todo mundo quer ver as pessoas más sendo punidas. Aqui, o Dominic está trabalhando duro em muitas áreas, mais particularmente na área da justiça. Para mostrar para as pessoas que na Febem, nos morros, com a polícia, no fórum, nos presídio que há formas muito mais eficazes e gostosas de lidar com conflitos do que as maneiras que eles estão escolhendo atualmente. Então Dominic organiza e trabalha com um grupo de juízes abertos a estas mudanças, fazendo com que a gente possa entrar em presídios e unidades da Febem onde há uma grande curiosidade sobre essas possibilidades.
Setor3: A mídia, os veículos de massa, divulgam com freqüência as notícias violentas. Como poderia continuar a noticiar esses fatos, mas de forma não-violenta, com uma linguagem não-violenta?
Marshall Rosenberg: A gente segue esta linha da CNV de forma que eles enxergam essa mudança não como sendo meramente uma idéia bonita, mas algo que atende melhor as necessidades deles. Assim eles vão estar mais abertos. Então, quando você apresenta uma matéria, você não fala que certo grupo é mau, são inimigos pelo que estão fazendo. Muitas vezes as pessoas procuram segurança e enxergam pessoas fazendo coisas que tiram esse senso de segurança. Colocam-nos em presídios construídos à base de punição, com a idéia de que através da punição o comportamento deles vai mudar. Nós sabemos que isso não funciona. Duas pessoas com o mesmo comportamento, um vai para um presídio e o outro não. Muitas pesquisas demonstram que a pessoa que foi para o presídio tem muito mais probabilidade de reincidir. Vamos fazer uma matéria sobre esses presídios e essa estatística, revelando uma forma que iria atender melhor às necessidades da sociedade, do preso e das pessoas que trabalham no presídio. A última vez que eu vim ao Brasil, Dominic organizou para que fossemos à Febem numa situação ao vivo, uma ameaça de matar uma guarda. Eles colocaram o jovem na solitária. Comecei a trabalhar com ele e depois conversei com a direção do presídio. Não falei pra eles que estavam fazendo uma coisa errada ao colocá-lo na solitária. Ofereci a eles uma opção que acho que vai atender melhor as necessidades deles, por exemplo, de segurança. Mas isso requer muita abertura para uma proposição radicalmente diferente. Somos pessoas que já vivem há muito tempo numa cultura em que os bonzinhos punem os maus.
Setor3: Qual a mensagem que pretende passar às pessoas que vão te ouvir aqui no Brasil?
Marshall Rosenberg: Desde que as pessoas estejam interessadas em criar paz, quero dialogar com elas sobre como, por exemplo, nós podemos fundar escolas ou transformar escolas que já existem. Por exemplo, lá em Israel, quando fizemos uma parceria com a Unesco, falamos para eles que nas escolas estruturadas com a educação não-violenta a violência é muito menor e também o aproveitamento acadêmico é mais alto. Gostaríamos de criar tanto em Israel quanto na Palestina escolas que tenham estas características, você gostaria de apoiar? Eles falaram: sim, mas nós temos muitos problemas nas escolas em que a Unesco trabalha na Europa também. Que tal se apoiássemos não somente as cinco escolas em Israel e as cinco na Palestina, mas, em troca, você implementa o mesmo programa em dois países na Europa. Pode ser? Então, de repente, tínhamos o projeto de fundar cinco escolas em Israel, cinco na Palestina, cinco na Croácia e cinco na Sérvia. Gostaram tanto dos resultados deste projeto que agora, com a organização da Unesco, foi capacitado um grupo na Sérvia que chegou a todas as escolas de Ensino Médio do país. Em cada escola tem um professor capacitado para passar isso a outras pessoas, chegando a milhares de alunos. Macedônia, um país vizinho, viu estas mudanças acontecendo nas escolas na Sérvia. Foram lá e pediram que professores destas escolas fossem para a Macedônia. Agora temos uma equipe maravilhosa na Macedônia que não foi capacitada por mim, mas pelas pessoas da Sérvia. É isso que eu espero que aconteça aqui. Que a gente possa mostrar para as pessoas essa possibilidade de multiplicação, na esperança que elas tenham interesse em desenvolver escolas ativas. Também quero apoiar o trabalho que o Dominic está fazendo no sistema de justiça. Podemos mostrar para eles como isso pode ajudá-los a realizarem suas próprias metas para a década da paz.
Setor3: Estamos na Década da Paz. Algo está mudando de fato neste sentido?
Marshall Rosenberg: A junção sinérgica de uma massa crítica de pessoas que enxergam a real possibilidade de um outro caminho e que tem como meta atender as necessidades de todos, a inclusão de todos de forma pacífica, já está conseguindo um resultado incrível em condições dificílimas. Na medida que esses números comecem a aumentar, vamos começar a ver mudanças radicais acontecendo no planeta em termos de Cultura de Paz. Recentemente estava lendo este livro, The Caos Point. Conheço bem este húngaro, Ervin Laszlo, é uma das pessoas que eu mais respeito que responde à sua pergunta. O que precisa acontecer, o que é possível acontecer para fazer com que esse mundo mude radicalmente? Ele tem um conhecimento profundo. Não é só um pensamento teórico, mas entende na prática e diz que uma das coisas que vai nos ajudar é o ponto de caos que está rapidamente se aproximando. Muitas vezes são experiências intensas de dor e de caos que estimulam e despertam nas pessoas a necessidade de agir positivamente a favor da paz. Ele sugere que as mudanças que precisamos fazer para evitar um colapso global precisam começar a acontecer nos próximos sete anos. Quando as pessoas falam isso penso, ah está exagerando. Mas esse homem é calmo e científico. Sete anos a partir de agora. Esse homem fundou o Clube de Budapeste. Há 20 anos, ele organiza pensadores do mundo todo, pessoas que estimo muito, pessoas do campo artístico, político, na mídia. Ele chama essas reuniões de o Clube de Budapeste. Trabalham tentando entender a crise que está chegando e como podemos responder. O meio-ambiente está sob ameaça, estamos criando armas que podem aniquilar a raça humana. É importante que a gente comece a fazer alguma coisa rapidamente. E ele diz que esta mudança começa com a mudança da nossa consciência. Uma consciência que nos dê outras maneiras de lidar com a dor no lugar da punição, que nos ajude a entender a necessidade de compreender as pessoas que estão criando essa violência. Não somente de permitir, a gente entende então vai lá, mas que aumenta a nossa capacidade de nos conectar com elas de uma forma transformativa. E ele acredita, como nós da rede CNV acreditamos – aqueles de nós que enxergam um outro caminho –, que, ao invés de agir da mesma forma para reprimir ou não fazer nada por que o problema é grande demais e não adianta, precisamos rapidamente nos unir para aumentar nosso poder de mudar as coisas.
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19:25:22