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Setor3: Esse movimento pela paz é um movimento ativo ou passivo?
Marshall Rosenberg: Muito ativo. A expressão 'não-violência' era uma expressão que Gandhi não gostava muito. Para ele parecia passividade. Descrevia o que as pessoas não eram. Mas no uso que ele fez disso, e que eu peguei emprestado para criar a CNV, não era passividade. Ele estava conversando sobre junção de poderes para transformar o sistema. Poder que semeia conexões humanas. Algo nada passivo. As pessoas com quem trabalho no mundo todo não estão contentes com o sistema, querem mudança; rapidamente. Eles querem algo que aumente seu poder, sua capacidade, sua competência de agir a favor desta mudança.
Setor3: Para falar de paz e o que está por trás dela você precisa entender o conflito e porque as pessoas agem de forma violenta. Pelo que viu e aprendeu nestes anos, o que gera violência e conflito?
Marshall Rosenberg: A educação. A educação desenhada a ensinar as pessoas a se submeterem às estruturas de dominação. Há um grupo de estudiosos que dizem que começamos a organizar as nossas sociedades desta forma há mais ou menos oito mil anos. Começamos a pensar que algumas pessoas são superiores a outras, umas inferiores a outras. E que aqueles de cima têm o direito de mandar e controlar. Alguns destes superiores são chamados reis, outros são chamados professores, padres, pais. E o trabalho destas pessoas é controlar o grupo inferior. Isso é feito melhor através de um sistema de punição e de recompensas. E essa é a educação que eu acredito que contribua com a violência no planeta. Infelizmente, aproximadamente 80% das pessoas no planeta já passaram por uma doutrinação que ensina que a violência é natural e necessária. Se queremos viver em um planeta harmonioso, você, eu e outras pessoas temos que nos juntar e transformar essa forma de pensar, agir e comunicar que atualmente prevalece no planeta.
Setor3: O que significa, na prática, ser um mediador de conflitos?
Marshall Rosenberg: Quando eu encontro pessoas em situação de conflito - lido com conflitos em todos os níveis: maridos e mulheres; tribos na África em guerra civis... Uma vez estive na Nigéria junto com os chefes de duas tribos, uma cristã e uma mulçumana. Na aldeia deles, 40% da população tinha sido morta internamente em um ano. Todas as casas mulçumanas tinham sido destruídas. Então você pergunta como é que eu lido com eles... Eu falei para os 13 chefes de um lado e os 13 do outro: tenho certeza de que este conflito pode ser resolvido sem continuar com a violência, a partir do momento em que a gente puder ouvir claramente as necessidades do outro. A minha experiência é de que quando podemos viabilizar as necessidades dos dois grupos, podemos buscar estratégias para atender as necessidades de todos. Então perguntei: quem gostaria de começar a expressar suas necessidades? Eu podia prever o problema. Eles tinham recebido uma formação parecida com a minha. Durante 21 anos, freqüentei a escola e apenas uma única vez consigo lembrar de alguém perguntando quais eram as minhas necessidades. Fiz meu PHD sabendo quais as respostas que meus superiores achavam ser certas. Era um jogo chato, entediante, mas eu fiz bem. Recebi minha recompensa: sou DOUTOR Marshall hoje. Mas nunca descobri o que estava vivo dentro de mim, o que eu estava precisando. Então não me surpreendi ao perguntar aos chefes das tribos quais eram suas necessidades e o chefe do lado cristão respondeu assim, gritando: vocês, mulçumanos são assassinos! Logo, do lado mulçumano: Você tentam nos dominar! Foi assim que eu fui educado, nunca soube descrever minhas necessidades. Mas aprendi que existe neste planeta pessoas certas, pessoas erradas, pessoas boas e más e como distingui-las. E tenho visto que esta linguagem contribui para a violência, porque cria um modo de justiça retributiva, ou seja, você vai ser julgado de acordo com aquilo que merece. Sabendo disso, os dois lados estão falando uma linguagem em que constantemente sugerem – é implícito – que o outro lado precisa ser punido para aprender a agir de outra forma. Então traduzi as mensagens que eles ofereceram um ao outro desta linguagem de julgamentos a uma linguagem de necessidades. Nosso treinamento se baseia na presunção de que toda a crítica é uma expressão trágica de uma necessidade não atendida. Então traduzindo o 'vocês são um bando de assassinos', disse para o chefe: a sua necessidade é confiar que vai haver mecanismos nesta comunidade para lidar com o conflito sem recorrer à violência. Ele disse: foi exatamente o que eu disse. Mas não foram exatamente as palavras que ele usou. Então perguntei para um membro da tribo mulçumana: algum de vocês pode dizer o que ouviu o outro dizer? Quando a pessoa tem preconceitos acerca de um outro, mesmo se a necessidade for verbalizada, tem dificuldade em ouvir. Estará vendo antes seu próprio diagnóstico sobre o outro e isso bloqueia. Então não era uma surpresa para mim quando pedi para ele resumir as necessidades do outro, ele falar: se você não gosta de assassinos, então porque você matou meu filho?
Não foi fácil fazer com que eles aprendessem a falar uma linguagem de vida e ouvissem o outro. Finalmente consegui fazer com que cada lado conseguisse ouvir pelo menos uma necessidade do outro. Neste momento um dos chefes virou para mim e disse: Marshall, se nós aprendermos a nos comunicar e nos relacionar da forma que você está mostrando, não vai ser mais necessário a gente se bater. Esse é o nosso processo, a gente demonstra um outro caminho, um caminho mais sincero. Mostramos que cada análise que implica em erro é uma expressão trágica das necessidades do falante. Se você rotula seu filho 'você é preguiçoso!', por que ele não quer arrumar as coisas no quarto, isso não o motiva a querer limpar. Ao invés disso, expresse sua necessidade. Explique que seria extremamente importante para você receber apoio e cuidar do bem-estar mínimo da casa. Mas os pais já foram doutrinados com essa forma de pensar, os professores, os padres, os políticos. Então você e eu temos uma tarefa grande à frente. De transformar esta forma de pensar. Mas temos uma vantagem. O que gostaríamos que as pessoas fizessem é mais natural. Não mistura aquilo que é natural com aquilo que é normal ou habitual. Há séculos, as pessoas foram ensinadas e doutrinadas a saber como punir os outros. O que nós estamos oferecendo pode até ser perturbador no início, algumas pessoas confundem isso com uma atitude passiva perante a injustiça e a violência. Se você não pune a criança você está semeando a impunidade, se você não pune os terroristas eles vão ficar mais violentos. Então temos uma forma radicalmente diferente de ver o mundo e é uma tarefa razoável.
Setor3: O Centro de Comunicação Não-Violenta nasceu desta vontade de somar?
Marshall Rosenberg: Sim, de nos apoiar a voltar a viver, voltar à vida. Quando a gente nasceu somente falava a comunicação não-violenta. Quando acordamos no meio da noite com fome não dissemos a nossos pais: como você pôde ser tão insensível de me colocarem pra dormir com fome, levanta, caramba, e me dá comida agora! Não. Usávamos uma linguagem da vida, que traz à atenção das pessoas uma necessidade nossa que não estava sendo atendida. Portanto, não podemos falar que a CNV tem uma linguagem nova. É uma linguagem natural da qual nos desconectamos em algum momento.
(CONTINUA)
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19:23:18