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Ícone da Cultura de Paz e fundador do Centro de Comunicação Não-Violenta, Marshall Rosenberg, relata vivência como mediador de conflitos
Juliana Rocha Barroso
PARA SETOR 3 - http://www.setor3.com.br
A Assembléia Geral das Nações Unidas declarou o período 2001-2010 como a "Década Internacional da Cultura de Paz e Não-Violência para as Crianças do Mundo". Mas o que de fato tem mudado neste sentido? Qual o significado de paz? "A paz não é um processo passivo: a humanidade deve esforçar-se por ela, promovê-la e administrá-la", declara a Unesco.
Indivíduos, instituições e estados estão somando forças nesse movimento. No Brasil, um exemplo foi a criação do Comitê Paulista para a Década da Cultura de Paz - um programa da UNESCO.
Mediador de conflitos com mais de 20 anos de prática, um dos alicerces da Cultura de Paz, o doutor em psicologia clínica, Marshall Rosenberg fundou, em 1984, o Centro de Comunicação Não-Violenta (CNV), que capacita e promove projetos de aplicação dos princípios de seu trabalho em mais de 50 países. É autor de nove livros, entre eles Comunicação Não-Violenta, que foi lançado em português durante o fórum temático.
O CNV tem projetos geográficos e temáticos. Nos temáticos, pessoas trabalham especificamente na área de transformação social, de criação de filhos, de justiça restaurativa entre outros. E geograficamente, os projetos focam em países em que a situação e as possibilidades são mais intensas.
Marshall usa a imagem da girafa para representar a Comunicação Não-Violenta. "A girafa é um mamífero terrestre com o maior coração, vive sua vida com gentileza e graça e tem um pescoço muito comprido para enxergar a longo prazo." A girafa é usada para simbolizar as formas de comunicar que semeiam a compreensão e a parceria. Enquanto o lobo simboliza a forma como fomos educados a nos comunicar e nos organizar socialmente. "Vou pegar o que é meu e os outros que se virem. A girafa revela que o lobo não é mau é só uma pessoa com problema de comunicação."
Em entrevista ao Setor3, Rosenberg conta sua experiência, as dificuldades e os aliados que conquistou nesta caminhada pelo mundo, entre eles Dominic Barter, fundador da CNVBrasil, que acompanhou a entrevista e declarou:: "O Brasil tem uma situação muito difícil, mas uma potencialidade fenomenal para a Cultura de Paz. Nossa rede estabelece relações de parceria com grupos que estão trabalhando ativamente para melhor atender essas necessidades básicas: segurança, paz, moradia, comida, educação, respeito, autonomia."
Setor3: Qual sua idade e onde nasceu?
Marshall Rosenberg: Eu tenho nove anos, eu acredito que cada pessoa tem o direito de ter a idade que gostaria de ter. Então sempre digo que tenho nove anos. Não é muito fácil convencer a minha mulher. Ela diz que tenho 72. A gente também discute essa questão: eu digo que ainda não nasci. Cresci no bairro que aparece no filme 8 milhas, em Detroit. Nasci em Ohio, mas quando era criança minha família se mudou para Detroit.
Setor3: Trabalhar com comunicação não-violência, cultura de paz. Por quê?
Marshall Rosenberg: Crescendo naquele bairro. Me deu muito medo. Eu tinha 8, 9 anos. No primeiro dia em que fui para escola e alguém ouviu meu segundo nome eles estavam me esperando depois da aula. E perguntaram: você é judeu? E aí eles pularam em cima de mim e começaram a me bater. Vi muito conflito racial e me deu medo de crescer num mundo assim. Como criança, vendo um querer machucar o outro por causa de cor de pele, por causa do nome. A partir daquela idade e até hoje nada me interessa mais do que perguntar como é que as pessoas são educadas, doutrinas a agir dessa forma, criar essas violências e como podemos educar, então, as pessoas para que fiquem parecidas com meu tio. Ele sempre contribuiu para o bem estar das outras pessoas. Eu não vi ele agredir por causa de nome ou cor de pele. Minha vida toda eu tive interesse nisso. Como é que algumas pessoas gostam de contribuir para o bem-estar dos outros, enquanto outras querem machucar as pessoas por serem diferentes?
Setor3: De pensar nesses conflitos a fazer algo, o que aconteceu?
Marshall Rosenberg: Eu queria saber o que fazer perante essa situação. Um dia voltei pra casa depois de levar uma surra e um outro tio meu, muito simpático, tentou me ajudar do seu jeito e explicou: você tem que bater primeiro nos outros. Então, por alguns anos tentei fazer isso. Eu aprendi a ser violento. Mas aí fui abençoado de começar a entender formas mais poderosas de lidar com a violência. Via pessoas como o meu tio, minha avó que tinham outra maneira de lidar com a agressão. Ninguém estava querendo bater neles, maltratá-los. Então eu estava vendo estes dois mundos. Este mundo em que as pessoas estão querendo se machucar por causa das suas diferenças, um mundo em que a sobrevivência depende de ser mais agressivo. E do outro, pessoas que se importam com as outras e querem contribuir para o seu bem-estar. Isso me impactou profundamente e decidi lá o que queria fazer da minha vida. Eu queria pesquisar e aprender como transformar essa violência, fazer dela uma forma pacífica de conviver, como ela podia ser prevenida. Nos últimos 60 anos me questiono sobre isso, o que a gente aprende que faz as nossas ações violentas. E o que apóia pessoas como meu tio e minha avó a agirem de uma forma diferente. Estudei isso durante anos e comecei a enxergar as diferenças de uma forma muito clara. Então nos últimos 40 anos eu me importo com como podemos distribuir esta outra forma de conviver para o máximo número de pessoas possíveis no planeta. Tenho achado pessoas como eu, que estão dispostas a fazer muito trabalho para mostrar para as outras pessoas que tem outra maneira de agir que é mais divertida, mais legal. No planeta todo, agora em mais de 65 países, eu encontro pessoas como Dominic para descobrir como a gente pode pensar juntos um novo caminho.
imagens: http://www.basileia.org/mbr4_c_2x3_300.jpg/mbr4_c_2x3_300-full.jpg - http://qwe.blogs.sapo.pt/arquivo/095-girafa.JPG
(CONTINUA)
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