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Nem Santos nem Demônios
Considerações sobre a Imagem Social e a Auto-imagem das Pessoas Ditas "Deficientes".
Rita Amaral e Antônio Carlos Coelho
Sobre Visão e Audição.
Em primeiro lugar é preciso compreender o papel da visão e da audição em nossa cultura e, para isto, parece importante destacar, já de início, que o valor que se dá a estes dois sentidos na cultura ocidental não é um fenômeno universal, ou seja, compartilhado por toda a humanidade, como crê o senso comum. Vejamos, como exemplo o modo como a visão e audição são concebidas entre os índios brasileiros Suyá, estudados por Anthony Seeger. Para os Suyá a visão é antitética à audição. Entre os Suyá, a fala e a audição são os sentidos mais valorizados e os mais elaborados simbolicamente. Por esta razão, as orelhas e os lábios são constantemente marcados de forma altamente simbólica por perfurações, por adornos, modificação (como é o caso dos discos labiais, dos adornos plumários e dos discos nas orelhas).
"Os Suyá definem-se como uma tribo diferente de outros grupos por usarem discos nos lábios e nas orelhas e por cantarem num estilo particular. Afirmam que nenhum outro grupo tem estes três atributos e por isso nenhum outro grupo é completamente humano" (SEEGER, Anthony. - Os índios e nós. Estudos sobre sociedades tribais brasileiras. - Rio de Janeiro, 1980).
Portanto, o uso da fala e da audição - dois sentidos complementares - é o que define os Suyá enquanto grupo."Os Suyá recebem informações com todos os sentidos, mas enfatizam mais a audição e a fala como faculdades eminentemente sociais" (idem,.p.45). Como em qualquer cultura, é por meio da fala e da audição que se dá a socialização entre os Suyá. E pela fala que transmitem os códigos e as normas de conduta, que devem ser ouvidos e bem retidos. "Quando os Suyá aprendem alguma coisa, mesmo algo visual como por exemplo, um padrão de tecelagem, dizem 'está no meu ouvido'" (SEEGER,1980:47).
Por ser a fala a dimensão mais eminentemente social, as partes do corpo que se relacionam a ela - os lábios e as orelhas (falar e ouvir) - são ornamentados, perfurados, deformados, marcados enfim. Aqui é preciso lembrar Pierre Clastres (1978:128) quando diz que "a sociedade imprime suas marcas no corpo dos jovens (...) o corpo é uma memória". No caso dos Suyá, essa marca é feita justamente nos pontos do corpo onde estão os sentidos privilegiados.
Já a visão tem, para os Suyá do Xingú, um papel secundário. Mais até: um papel perigoso, desviante: "Homens, mulheres e crianças são socialmente definidos pela audição e fala, e os feiticeiros pela sua visão extraordinária" (SEEGER,1980:45)
Os atributos de uma boa visão são usados para qualificar os animais e, por extensão, as atitudes que fogem ao controle social, como a dos feiticeiros. Uma pessoa torna-se feiticeira quando o feitiço invisível entra nos seus olhos, o que acontece somente com certas pessoas e em circunstâncias especiais.
(...)
A audição tem importância fundamental exatamente por estar relacionada à fala e portanto à linguagem. Esta, evidentemente, é uma situação universal, pois todas as culturas humanas apresentam linguagem oral. Sendo a audição um meio essencial para a aquisição e uso da linguagem, ela é um sentido essencial à socialização de qualquer ser humano. Sob este aspecto é que a surdez passa a ser entendida como especialmente dramática quando ocorre na infância, já que ela dificulta a inserção e adaptação ao meio social. Poderíamos dizer, no entanto, que se a audição não fosse o canal fundamental para a aquisição da linguagem, déficits nessa área trariam prejuízos mínimos, comparáveis à perda da capacidade olfativa ou gustativa. Isto é, o homem se utiliza muito pouco de informações auditivas diretas e não simbólicas. Assim, se for possível superar os prejuízos de comunicação oral ocasionados pela deficiência de audição, será possível integrar o deficiente auditivo no meio social.
Por sua vez, a importância da visão em relação à audição nas culturas de tradição ocidental é bem diversa da que é dada, por exemplo, na cultura Suyá. Se a audição ocupa em ambas uma posição de destaque como transmissora da cultura, a mesma proximidade não se dá em relação à visão. Ao contrário da sociedade Suyá, na sociedade ocidental a visão tem extrema importância, embora lhe seja reservado um caráter ambíguo. Tanto é assim que a maioria das artes ocidentais é predominantemente visual. Mesmo a música, arte feita para ser ouvida, vem adquirindo um plano visual através da vídeo-música, dos vídeoclips. A própria linguagem, inclusive, adquiriu um plano visual, a escrita, que exige decodificação visual.
Também ao contrário dos Suyá, os olhos são, para os ocidentais, uma parte do corpo valorizada e privilegiada. Os olhos são um espaço do corpo constantemente adornado e seletivamente exposto ou protegido conforme se deseje ou não expor a própria pessoa, pois se pensa que "os olhos são o espelho da alma". Os olhos são os órgãos que podem trazer imediatamente informações à mente e, por este motivo, extremamente privilegiados entre os orgãos dos sentidos. Como os contatos interpessoais dentro do ambiente urbano são marcados pela funcionalidade e eficiência com que possam se dar, a necessidade de um acesso rápido à informação é entendida como essencial. Nesse contexto, as informações visuais são necessárias e vitais, pois são as formas mais rápidas de absorção das informações.
A visão, porém, apresenta caráter ambíguo: do mesmo modo que pode absorver informações precisas e extensas (no sentido de corresponder à realidade), pode também elaborar ilusões, falsas impressões e até mesmo impressões não classificáveis nas categorias estabelecidas pela cultura. Informações falsas e "erros" ocorrem facilmente, já que o aspecto exterior de uma coisa ou de uma pessoa não revela o mecanismo interno que a rege. Nossa cultura admite isto. Basta lembrarmos do ditado: "quem vê cara não vê coração".
TEXTO EXTRAÍDO DE: BENGALA LEGAL - SITE DE MARCO ANTONIO QUEIROZ - CLIQUE AQUI


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FOTO COM O AMIGO MAQ - SETEMBRO 2004

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