Arte Brasilis 2

É a continuidade de ARTE BRASILIS http://artebrasilis.blog.terra.com.br Uma REVISTA ELETRÔNICA de ARTE, CIÊNCIA, FILOSOFIA, EDUCAÇÃO e CULTURA DE PAZ. artebrasilis@hotmail.com - artebrasilis@bol.com.br

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Arquivo de: Agosto 2008, 26

26.08.08

NO LIXO, COM DIGNIDADE

categorias: GENTE EM AÇÃO !

 

IMAGEM ARTEBRASILIS - 26/08/08

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Catar papel, modo de sobreviver

Eles estão presentes em toda a cidade, mas muitos preferem fingir que eles simplesmente não existem. Entretanto, os catadores de papel com seus carrinhos lotados de material reciclável já fazem parte da paisagem urbana, em um reflexo direto do alto índice de desemprego no Brasil.

Apesar de a profissão ser reconhecida pelo cadastro brasileiro de ocupações, não há um registro exato de quantas pessoas exercem essa função - estima-se que em Curitiba sejam 15 mil. Entretanto, em uma análise por amostragem, é unânime a versão de que ser catador de papel não é uma opção, mas um modo de sobrevivência - a renda de um catador de papel gira em torno de R$ 200 mensais e este dinheiro muitas vezes é utilizado para sustentar toda a família.

Na dura rotina, eles arrastam pesados carrinhos por calçadas irregulares, ou dividem o espaço do asfalto com os carros. Faça chuva ou faça sol, são no mínimo cinco horas percorrendo a cidade em busca de material - o que geralmente é feito durante a noite. Durante o dia, a função é separar o material recolhido para vender nos depósitos, com os quais os catadores vivem uma relação de amor e ódio.

“Se por um lado eles reconhecem que são explorados, por outro dependem dos depósitos, que emprestam o carrinho a eles e dão um espaço para eles viverem”, diz Mariuza Aparecida de Lima, uma das comandantes do Instituto Lixo e Cidadania [LINK], que luta pela mobilização da classe em busca de melhores condições de vida.

No mecanismo de trabalho, a maioria dos catadores não tem dinheiro para a aquisição do carrinho próprio. Então, procuram os depósitos para os quais entregam o material separado em troca do instrumento de trabalho e, em algumas vezes, um espaço para viver - há famílias inteiras dividindo espaço entre o lixo nesses locais.

“Conseguimos, através de doações, conceder alguns carrinhos. Mas o problema da moradia é muito difícil de ser resolvido”, diz Mariuza, referindo-se ao trabalho do Centro de Formação do Catador, que funciona na Rua Doutor Salvador de Maio, 25, no Jardim Botânico.

Quem não vive nos depósitos, acaba tendo que se submeter ao preço pago por eles pelo material separado. Para se ter uma idéia, um quilo de alumínio - material mais valorizado pelas empresas, custa R$ 2,90.

Ecologia

A despeito das agruras de uma vida de privações, os catadores têm o alento de ser agentes ecológicos. O trabalho árduo da coleta e separação do lixo, para posterior reciclagem. “É o que usamos como questão de resgate social. Somos importantes para a preservação do meio ambiente e da humanidade, mesmo que haja muito preconceito e marginalização”, diz Mariuza.

No instituto, está sendo plantada uma semente de conscientização em torno deste importante papel social dos catadores, inclusive com palestras educativas, com participação efetiva do Ministério Público. “Somos cidadãos e temos direitos como qualquer outro cidadão. Por isso, a mobilização é fundamental”.

Trabalho feito durante a noite acaba rendendo mais

O dia de trabalho da maioria dos catadores de papel começa quando muitas pessoas estão voltando aos seus respectivos lares. Terezinha Aparecida da Silva Gonçalves, casada, mãe de duas crianças, reveza com o marido Flávio as saídas em busca do lixo que vai sustentar a família.

“Trabalhamos das 17h às 23h, porque é o horário em que as pessoas e as empresas colocam o lixo para fora e podemos encher o carrinho”, diz Terezinha. Com o marido e os filhos, eles moram em uma casa alugada na Vila das Torres. Durante o dia, as crianças ficam numa creche da Prefeitura. À noite, ficam com o pai ou com a mãe, dependendo do dia. “Poderíamos morar em algum depósito, mas dá muita mistura, tem muita gente que não presta e fica se embebedando”, diz Flávio.

Com o pouco dinheiro que juntam - cada um consegue em média R$ 200,00, eles pagam o aluguel e pelo menos alguma comida na mesa, mas asseguram que só catam papel por extrema necessidade. “Eu vim de Guarani-açu para Curitiba em 95, em busca de emprego, mas sem estudo, pouco se consegue. Até hoje estou procurando, sem sucesso”, lamenta Terezinha.

Apesar de o marido Flávio ser um caso típico da herança profissional paterna - o pai dele já exercia essa atividade, Terezinha pensa em um futuro diferente para os filhos. “Quero que eles estudem. Tenho consciência da importância ecológica do catador, mas isso é sobrevivência. Quero uma vida melhor para as crianças".

A migração do campo para a cidade é muito comum entre os catadores. A propaganda em torno da capacidade de geração de empregos propalada na década de 90 provocou um êxodo rural considerável. Sem empregos suficientes para atender à demanda, a opção de muitos foi se tornar catador.

Andréia Aparecida dos Santos, mãe de três meninos, está em Curitiba há quinze anos, vinda de União da Vitória. “Minha família já estava aqui e vim tentar a sorte. Acabei virando catadora”, diz. Este ano, ela virou voluntária do Clube Mães e hoje trabalha como artesã. “A vida nas ruas é muito desgastante, com frio e violência. Além do esforço físico, muitas vezes não somos bem tratados e vistos como marginais". (...)

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Estudo diz que 61% dos catadores de papel de SP já tiveram emprego

Os carroceiros da cidade de São Paulo, que seriam cerca de 20 mil, conseguem obter uma renda mensal média de até R$ 450 (...) A maioria já trabalhou na economia formal, inclusive com carteira assinada. Estas são constatações de um perfil da "categoria" feito pela Secretaria Municipal do Trabalho, baseado em cerca de 500 entrevistas. A profissão, para a maioria dos catadores, é nova. Grande parte deles afirma estar de quatro a nove anos na função (23%), seguidos carroceiros com até dois anos de trabalho (22%).

A grande maioria já teve carteira assinada (61%), sendo que a experiência profissional mais encontrada é na construção civil (39%). O ganho médio num dia de trabalho é de R$ 6 a R$ 10 (28%), podendo subir e ficar entre R$ 11 e R$ 15 (21%). Cerca de 90% dos carroceiros são homens, e, apesar de haver a necessidade de um esforço físico para puxar a carga, 48% têm idade entre 41 e 55 anos. Grande parte reside em casas (55%) e apenas a minoria mora na rua (23%) ou em albergues (14%).

Dos entrevistados, 77% não apresentaram nenhum problema de saúde física, mental ou vícios. A escolaridade é baixa e a maioria não completou o ensino fundamental. A maior concentração dos carroceiros, também conhecidos como "catadores", fica nos bairros do Centro e da Lapa, nos quais atuam 32% e 29% deles, respectivamente. O motivo, diz a Prefeitura, é a alta quantidade de resíduos jogados nas ruas nestes pontos. Entre os materiais que são recolhidos prioritariamente pelos carroceiros destacam-se plástico, metal e papel, com 53%, e tecidos e outros, com 17%.

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