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Mudar a ótica - Cristovam Buarque
O primeiro papel de um líder é mudar a visão que o povo tem de seu próprio país. O maior mérito de Juscelino Kubitschek foi fazer o Brasil perceber-se não mais como país rural, agrícola, exportador, como tinha sido ao longo de séculos; mas sentir-se urbano, industrial, voltado para o atendimento da demanda interna. Fernando Henrique Cardoso, em oito anos, fez o Brasil ver-se como país capaz de manter sua economia funcionando, com estabilidade monetária, depois de décadas de inflação. O presidente Lula, ao ser eleito e governar com competência, depois de décadas de inflação, fez o Brasil enxergar e respeitar aqueles que têm origem nas camadas mais pobres da sociedade, o que não acontecia mesmo depois de um século de República.
Mas nenhum desses presidentes realizou cinco mudanças fundamentais na maneira como o Brasil se vê.
O Brasil precisa deixar de se ver como prisioneiro do imediatismo, gastando no presente, sem poupar para o futuro. Um país que opta permanentemente por dívidas, tanto públicas quanto privadas.
A segunda mudança é na visão do valor de nosso patrimônio natural. Historicamente, estamos acostumados a uma economia que depreda a natureza: indústrias poluentes, esgotamento de minas, enfraquecimento de solos. É preciso perceber que a natureza pertence às futuras gerações.
Precisamos também ver-nos como povo soberano, reconhecendo a realidade da globalização. Essa é a terceira mudança. Por séculos, nos vimos como colônia submissa às grandes potências, como subdesenvolvidos lutando para imitar os países ricos. O Brasil se precisa se ver como uma nação independente, soberana, mas parte da humanidade globalizada. Devemos olhar para a Amazônia como nosso patrimônio, mas cuidando dela com responsabilidade, como patrimônio de toda a humanidade.
A quarta mudança de visão é dar importância ao público, em vez de valorizar o privado. Na visão que o Brasil tem do Brasil, somos a soma de 180 milhões de indivíduos e não uma coletividade de 180 milhões de cidadãos. O Brasil tem de se ver como conjunto, e não como uma soma de indivíduos. Essa talvez seja a parte mais difícil, porque nos viciamos em uma democracia que ajusta os interesses de cada indivíduo ou corporação, mas não o interesse de todos. Nossa Constituição pode até ser cidadã, mas não é patriótica. Representa os interesses dos cidadãos, mas não o interesse patriótico do conjunto da Nação.
Finalmente, como última mudança - e a mais importante: precisamos ver o Brasil como um povo só, e não dois povos distintos. Nós nos vemos como país dividido, e como se esta divisão fosse natural: uma elite privilegiada e uma massa abandonada. Acostumamo-nos de tal maneira com a exclusão de parte da população que nos alegramos com o fato de que o País cumprir uma “grande” missão de generosidade, distribuindo um pouquinho com reduzidas transferências de renda.
Nenhum dos governos do nosso País teve a postura de unificar o povo brasileiro. Nenhum se dispôs a fazer qualquer revolução republicana que desse a todos o mesmo nível de cidadania, mesmo que convivendo com desigualdades na renda.
Se quisermos, de fato, merecer o respeito dos que virão depois de nós, temos de enfrentar o debate de como construir um país diferente. E o ponto de partida é como fazer para ver o Brasil de maneira diferente da vergonhosa ótica que adotamos: um país imediatista, privatista, individualista, dividido, depredador.
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Cristovam Buarque é Professor da Universidade de Brasília e Senador pelo PDT/DF
Número de pobres aumenta apesar de crescimento econômico mundial
Qui, 17 Jul, 05h01 - Yahoo notícias
GENEBRA (Reuters) - Os índices recordes de crescimento econômico registrados nos países mais pobres do mundo não conseguiram evitar o aumento do número total de miseráveis, afirmou na quinta-feira a Conferência das Nações Unidas sobre o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad).
A disparada do preço dos alimentos ameaça minar os avanços modestos eventualmente realizados, e três quartos dos moradores dos países menos desenvolvidos (LDCs) continuam sobrevivendo com menos de 2 dólares por dia, afirmou o órgão em um relatório.
Uma renda de menos de 2 dólares por dia não permite que uma pessoa satisfaça suas necessidades básicas de comida, água, moradia, saúde e educação, afirmou o Relatório 2008 sobre os Países Menos Desenvolvidos.
Os 49 LDCs registraram crescimentos recordes de 7,9 por cento em 2005, de 7,5 por cento em 2006 e de, segundo estimativas, 6,7 por cento em 2007, disse o documento.
Mas as altas taxas de expansão da economia, resultado em muitos casos da alta dos preços de combustíveis e minérios, pode não ser sustentável, afirmou o relatório.
"Quando se analisa o que ocorria dez anos atrás, metade dos LDCs experimentou uma desindustrialização, que se manifesta em uma queda da participação dos produtos manufaturados no PIB (Produto Interno Bruto)."
O crescimento recorde deveria ter oferecido uma oportunidade para melhorias substanciais nas condições de vida da população, mas um aumento dessas populações e outros fatores fizeram com que cerca de 581 milhões de moradores dos LDCs em 2005, de um total de 767 milhões, continuassem vivendo sob condições de privação material, afirmou.
As taxas de crescimento, ainda, distribuem-se de forma desigual. Em 2006, a Guiné Equatorial e Timor Leste viram seus PIBs diminuírem, ao passo que o Chade, a Somália, o Haiti, a Eritréia, o Nepal, o Lesoto, Comores, Tuvalu e Kiribati registraram menos de 3 por cento de crescimento.
A expansão econômica teve algum impacto sobre os índices de pobreza absoluta, definida como o estado dos que vivem com menos de 1 dólar por dia. Esses índices caíram para 36 por cento da população dos LDCs em 2005 -- que formam ainda um grande contingente de 277 milhões de pessoas --, de 44 por cento em 1994, afirmou o relatório.
(Por Jonathan Lynn)
REUTERS FE
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