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Terra Blog

Arquivo de: Julho 2008, 14

14.07.08

CULTURA E CULINÁRIA REGIONAL

categorias: VIDA SAUDÁVEL

 

Uma chef ensina a crianças da periferia do Rio de Janeiro o valor cultural e nutritivo da mandioca, retribuindo o que aprendeu com o povo da roça

Texto Clarice Couto -
http://revistagloborural.globo.com



A cozinha era o espaço mais alegre, livre e criativo da casa da infância já distante da chef carioca Teresa Corção. Caçula temporã de cinco irmãos, ela encontrava em dona Cristina, cozinheira da família, uma companheira descontraída para algumas horas do dia. Daquelas que cantam enquanto lavam pratos e vigiam a comida no fogão. Seu pai, o escritor Gustavo Corção, vivia alheio à lida doméstica, mas valorizava o que era feito com autenticidade.


Anos depois, graduada em Desenho Industrial, Teresa não encontrava estímulo para exercer a profissão. Mas enxergou no restaurante administrado pela irmã, O Navegador, do qual é chef até hoje, a oportunidade para aplicar sua criatividade no que realmente gostava: a gastronomia. Há cerca de seis anos, os tempos de criança voltaram a repercutir em sua vida profissional. Durante um festival gastronômico em Pernambuco, ela se deparou com uma lista de ingredientes, boa parte dos quais derivados de mandioca. E ficou perplexa ao constatar que conhecia poucos. 'Senti uma mistura de vergonha e tristeza', diz. De volta ao Rio, perguntou certo dia a seus cozinheiros sobre as casas de farinha, comuns em pequenas propriedades do Norte e Nordeste, instaladas geralmente ao lado da residência familiar e onde se transforma a mandioca em farinha. Nova surpresa: o grupo, que nunca tinha comentado o assunto, 'desatou' a falar com emoção.

'Me dei conta de que eles não tinham mencionado o tema até então porque o associavam ao passado, a algo bom, embora visto no Rio com preconceito. Eram lembranças que doíam e eles tentavam esquecer. Eu reagi intuitivamente e passei a retribuir o que aprendi com os nordestinos, valorizando a cultura e a culinária da região aos olhos de seus descendentes', conta Teresa.

Esses herdeiros são crianças de 9 a 12 anos de uma escola pública do Rio de Janeiro, moradoras das comunidades da Rocinha, Cerro Corá e Vidigal, que desde 2002 participam de oficinas elaboradas e ministradas pela própria Teresa. 'A primeira coisa em que pensei foi ensiná-los a preparar tapioca. Mostrar o valor de seus pais e do que fizeram no passado.'

Para isso, Teresa recorreu a várias táticas. A primeira delas foi pedir que as crianças trouxessem alguma receita com o tubérculo que fora guardada por sua mãe, vó, tia. Acertou em cheio. Meninos e meninas apresentaram orgulhosos o que haviam encontrado em casa. Depois, partiu-se para o resgate histórico do produto. Primeiro, relembrando que Pero Vaz de Caminha, o escrivão de Pedro Álvares Cabral, já mencionava o tubérculo em sua primeira carta à Corte Portuguesa. Segundo, contando a lenda tupi-guarani da índia Mani, que morreu e deixou sobre seu túmulo a semente da qual teria nascido a mandioca.


Teresa Corção, com uma de suas alunas: valorização do saber popular
Ao quarto recurso - a música 'Farinha', de Djavan -, se somaram pitadas constantes de noções de higiene e organização na cozinha. E, por fim, a idéia inicial: ensinar a preparar a tapioca, permitindo às crianças colocar literalmente a mão na massa. Resultado: de 2002 para cá, aproximadamente 1.700 alunos passaram pelas oficinas, que duram um mês. A chef também promoveu a atividade em Recife, PE, Pirenópolis, GO, Tiradentes, MG, e em Visconde de Mauá, RJ.

Em 2005, ela partiu para a realização do primeiro concurso de recheios para tapioca, que deveriam ser preparados pelos pequenos. 'Eles apenas imaginavam a receita com o que achavam que ia ficar bom. Mas executavam e provavam pela primeira vez só no dia do concurso', explica. Três grandes profissionais foram convidados para avaliar o poder de criação das crianças: os franceses Claude Troisgros e Christophe Lidy e a brasileira Silvana Biancchi. Dos 15 participantes, venceria aquele com a receita mais original e saborosa, e que mostrasse destreza durante a preparação do prato. Os três primeiros lugares foram premiados e o vencedor, além de ganhar uma roupa completa de chef, também teve a oportunidade de passar um dia em um restaurante. A iniciativa deu certo e outras duas edições foram promovidas em 2006 e 2007.

O retorno recebido dos pais, segundo Teresa, é gratificante. 'Alguns adolescentes não só passaram a ajudar mais em casa como também a lidar melhor com graves problemas. O menino que ganhou em 2007, por exemplo, lidava não apenas com o medo do fogo como também com a recente mudança de Copacabana para a favela da Rocinha.'

Como os herdeiros da mandioca não se encontram apenas no Rio, Teresa tem trabalhado para implementar o projeto também em São Paulo. Se dependesse apenas de seu desejo, ela levaria as oficinas a todo o país e democratizaria ainda mais este conhecimento que, recorda, faz parte das raízes de todo brasileiro. Como bem canta o trecho da música de Djavan, 'O cabra que não tem eira nem beira, lá no fundo do quintal tem um pé de macaxeira'. *

ttp://revistagloborural.globo.com/GloboRural/0,6993,EEC1684553-1641,00.html

***

E MAIS...

Clipe com a música Farinha (Djavan) - com fotos e vídeos da produção de farinha na fazenda Santo Antonio em Vitória da Conquista - Bahia

http://br.youtube.com/watch?v=T5gODGl5ANc

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SONHOS NO LIXÃO

categorias: ISTO É BRASIL !

Sonhos no lixão

- por Shirley Paradizo - http://www.revistamonet.com.br





O catador de sucata José Luís Zagati construiu uma sala de exibição que é a única opção de lazer de sua comunidade



AOS 58 ANOS, JOSÉ LUÍS ZAGATI JÁ FEZ DE TUDO NA vida. Trabalhou como pedreiro, borracheiro e catador de sucata. E foi no meio de entulhos que seu sonho tomou forma: montar uma sala de cinema. Sua história começa ainda na infância, na época em que morava em Guariba, interior de São Paulo. “Quando eu tinha 5 anos, minha irmã me levou para assistir a um filme pela primeira vez. Fiquei encantado e cresci com isso na cabeça.” Hoje, faz dez anos que ele leva cinema para a comunidade carente do município de Taboão da Serra, onde vive há 50 anos, desde que seus pais deixaram o trabalho nas lavouras de café e cana-de-açúcar para tentar a vida na cidade de São Paulo. Sua primeira exibição ocorreu na rua, com um lençol como tela, um projetor de segunda mão e uns pedaços de filmes que encontrou no lixo e emendou. “Veio tanta gente… Foi emocionante ver as pessoas sentadas na rua, com o olhar brilhando. A maioria nunca tinha visto cinema na vida!”

Das ruas, as exibições semanais foram para a garagem da sua casa. “Minha mulher encontrou umas cadeiras no lixão, que reformei e coloquei no local. O filme, eu pegava emprestado.” Logo, o espaço ficou pequeno e ele vendeu seu imóvel para construir outro e, em cima, a sala do seu Mini-Cine Tupi, batizado assim em homenagem a um antigo cinema que funcionava no centro de Taboão e do qual ele era freqüentador assíduo. “Fiz praticamente tudo sozinho, tijolo por tijolo, já que não consegui patrocínio, nem mesmo da prefeitura. Tudo veio do meu trabalho como sucateiro.”

O único apoio que recebe é o da própria comunidade. “Os moradores aparecem para doar fitas VHS antigas, aparelhos de DVD quebrados e videocassetes que não usam mais, como uma forma de me ajudar a manter sua única opção de lazer em funcionamento.” Sim, isso acontece porque Zagati é personalidade famosa em Taboão - seu rosto já apareceu na TV, nos jornais e até em documentários. Mas isso não foi suficiente para driblar a escassez de recursos. Desde janeiro, as portas do Mini-Cine Tupi estão fechadas. “Meu projetor quebrou e estou juntando dinheiro pra comprar outro. Mas tá complicado.” Para ele, pior do que a falta de patrocínio é ver o olhar desapontado das pessoas, principalmente das crianças, ao ouvirem de Zagati que não há previsão para a próxima sessão. “O que adianta ter fama e, como dizem, a barriga vazia?”

http://www.revistamonet.com.br/?p=6400

 

Documentários sobre Zagati:

parte 1:

http://br.youtube.com/watch?v=39TcirH4Osc (8'41'')

parte 2:

http://br.youtube.com/watch?v=jEskVcFIX6U (9'11'')

Zagati na TV Alemã:

http://br.youtube.com/watch?v=RqGbeQVpA6c&feature=related (7'19'')

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"- é uma questão de vida...só eu sei o quanto que é bom...é muito bom..."

Zagati

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