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Vida de vidro
O artista Mario Seguso, nascido em 1929, na ilha Murano, Itália, chegou ao Brasil quando São Paulo comemorava 400 anos. Cinco décadas depois, já cidadão brasileiro e, mais especificamente, mineiro de Poços de Caldas.
Em entrevista, ele declara o seu amor à arte vidreira e deixa transparecer que, como diria o poeta Ricardo Reis, põe quanto é, no mínimo que faz.

O senhor é de família vidreira e nasceu em Murano, onde tudo era pensado em função do vidro. O seu ambiente o levou a seguir o caminho de vidreiro, mas o senhor já se imaginou alguma vez em outra profissão?
Nunca!!! (dito assim mesmo, com todas essas exclamações). Vim para o Brasil com 24 anos, na época das comemorações do quarto centenário de São Paulo. A Cristais Prado me convidou para fazer uma exposição. Meu contrato inicial era de dois anos, mas acabei ficando. Tem gente que, quando vai de um país para outro, muitas vezes muda de profissão, por conveniência. Eu nunca pensei em mudar.

O que te encantou no Brasil?
Gostei muito do Brasil e entendi que o país me ofereceria possibilidades para formar uma família, criar meus filhos e ter minha própria fábrica de vidros. É um país tranqüilo, sem guerras.
Atualmente acontece o contrário: vemos muitos brasileiros querendo ir para o exterior. Artistas reclamam que não são reconhecidos no Brasil...
É, acho que o Brasil um dia vai se arrepender de não ter segurado todos seus filhos aqui. É uma pena...
Bom, mas acho que realizei tudo aquilo a que me propus fazer. Consegui manter minha firma, que me deu muitas satisfações. Eu tive o prazer de poder trabalhar sem concorrência, de ser livre para fazer o que quisesse. Eu poderia ter trabalhado só por dinheiro, por exemplo, mas sempre trabalhei com muita responsabilidade, pensando também na tradição da minha família, que é vidreira desde 1290, quando a técnica ainda era restrita a Murano.
O vidro nasceu entre o rio Tigre e o Eufrates, onde hoje acontece a guerra do Iraque. Naquela época, Murano tornou-se a depositária deste processo, o qual havia nascido há mais de cinco mil anos. Nenhum outro país do mundo se arriscou a fazer o que Murano fazia. As cores e as formas do vidro muranês ninguém nunca havia imitado. Atualmente, neste mundo globalizado, não existem mais muitos segredos e mistérios. Mas nós ainda mantemos umas técnicas desconhecidas. Afinal, tantos séculos de trabalho tinham que servir para alguma coisa!

O seu trabalho seguiu a linha modernista, na medida em que se apropriou de técnicas de fora, no caso a de Murano, mas sem desprezar a cultura brasileira?
Aqui no Brasil fiz peças preocupando-me com as formas ligadas à cultura local. Copiar a Itália nunca me interessou. Muitas pessoas me diziam: "Você esteve na Itália, trouxe alguma novidade?". Para mim, a novidade deveria nascer aqui.
Quais aspectos da cultura brasileira o senhor valoriza no seu trabalho artístico?
A inspiração vem bastante da natureza: cipós entrelaçados; piracema, em vasos onde os peixes parecem pular; potes indígenas interpretados à minha maneira. Já fiz uma série de peças com cerca de 18 tipos de árvores amazônicas.
É possível se fazer uma analogia entre a vida e o vidro? De certa forma, sua vida é de vidro.
O vidro se funde com a própria vida de vidreiro, que torna a sua existência uma interminável saga de alegrias, criatividade e sucessos. Muitas vezes com dificuldades e sacrifícios que, no fim, trazem suas compensações.

A vida tem limitações e mistérios como o vidro? É frágil e transparente como o vidro?
Acontece de o vidro cair e quebrar. Com a gente também é assim: acaba uma fase, depois começa outra. São mesmo duas coisas muito relacionadas.
Como eu disse, nunca me imaginei fazendo outra coisa. Poderia ter plantado soja no Paraná ou ter virado um fazendeiro riquíssimo, mas preferi continuar vidreiro, fazendo o que gosto.
Mas ao contrário do vidro, a vida não se esfria tão rápido, ou pelo menos não deveria... Após tantos anos de trabalho, o senhor ainda se surpreende com a profissão, com o seu cotidiano de vidreiro?
É evidente, porque enquanto trabalho, já estou imaginando o que farei depois.
Todo dia é como se fosse o primeiro. Todo dia, a altas temperaturas, manifesta-se a transformação das matérias-primas, como areia e o calcário, em um material transparente, que é o próprio vidro. É um milagre por si só!
É preciso amar o vidro, porque ele é melindroso e muito exigente. Mas quanto mais difícil o trabalho, mais prazeroso!
ENTREVISTA INTEGRAL EM: http://www.grude.ufmg.br/gerus/noticias.nsf/e76867f1f59135c983256bd8006d3f64/0d49f389936cbc4a83256eba00788a90?OpenDocument
IMAGENS: http://flainandonaweb.blogspot.com/2007/06/mrio-seguso-artista-vidreiro.html

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>>> VÍDEO DA EXPOSIÇÃO "O VIDRO DO BRASIL ~ MARIO SEGUSO" (2008):
http://br.youtube.com/watch?v=vlE7q63OmKE
PRODUÇÃO E IMAGENS POR FERNANDA GROSSI ~ MÚSICA: UAKTI
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LINK: MÚSICA INSTRUMENTAL BRASILEIRA - UAKTI
http://arte.brasilis.zip.net/arch2008-04-06_2008-04-12.html#2008_04-09_20_09_37-126697123-0