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'Casar-se de novo' - Arnaldo Jabor 
Meus amigos separados não cansam de perguntar
como consegui ficar casado 30 anos com a mesma mulher.
As mulheres sempre mais maldosas que os homens,
não perguntam a minha esposa como ela consegue ficar casada com o mesmo homem, mas como ela consegue ficar casada comigo.
Os jovens é que fazem as perguntas certas,
ou seja, querem conhecer o segredo para manter um casamento por tanto tempo.
Ninguém ensina isso nas escolas, pelo contrário.
Não sou um especialista do ramo, como todos sabem, mas dito isso,
minha resposta é mais ou menos a que segue:
Hoje em dia o divórcio é inevitável, não dá para escapar.
Ninguém agüenta conviver com a mesma pessoa por uma eternidade.
Eu, na realidade já estou em meu terceiro casamento
- a única diferença é que casei três vezes com a mesma mulher.
Minha esposa, se não me engano está em seu quinto,
porque ela pensou em pegar as malas mais vezes que eu.
O segredo do casamento não é a harmonia eterna.
Depois dos inevitáveis arranca-rabos,
a solução é ponderar, se acalmar e partir de novo com a mesma mulher.
O segredo no fundo é renovar o casamento e não procurar um casamento novo.
Isso exige alguns cuidados e preocupações que são esquecidos no dia-a-dia do casal.
De tempos em tempos, é preciso renovar a relação.
De tempos em tempos é preciso voltar a namorar, voltar a cortejar, seduzir e ser seduzido.
Há quanto tempo vocês não saem para dançar?
Há quanto tempo você não tenta conquistá-la ou conquistá-lo
como se seu par fosse um pretendente em potencial?
Há quanto tempo não fazem uma lua-de-mel,
sem os filhos eternamente brigando para ter a sua irrestrita atenção?
Sem falar dos inúmeros quilos que se acrescentaram a você depois do casamento.
Mulher e marido que se separam perdem 10 kg em um único mês,
por que vocês não podem conseguir o mesmo?
Faça de conta que você está de caso novo.
Se fosse um casamento novo,
você certamente passaria a freqüentar lugares novos e desconhecidos,
mudaria de casa ou apartamento,
trocaria seu guarda-roupa, os discos, o corte de cabelo, a maquiagem.
Mas tudo isso pode ser feito sem que você se separe de seu cônjuge.
Vamos ser honestos:
ninguém agüenta a mesma mulher ou o mesmo marido por trinta anos com a mesma roupa, o mesmo batom, com os mesmos amigos, com as mesmas piadas.
Muitas vezes não é a sua esposa que está ficando chata e mofada,
é você, são seus próprios móveis com a mesma desbotada decoração.
Se você se divorciasse, certamente trocaria tudo,
que é justamente um dos prazeres da separação.
Quem se separa se encanta com a nova vida,
a nova casa, um novo bairro,um novo circuito de amigos.
Não é preciso um divórcio litigioso para ter tudo isso.
Basta mudar de lugares e interesses e não se deixar acomodar.
Isso obviamente custa caro e muitas uniões se esfacelam
porque o casal se recusa a pagar esses pequenos custos necessários para renovar um casamento.
Mas se você se separar sua nova esposa vai querer
novos filhos, novos móveis, novas roupas e você ainda terá a pensão dos filhos do casamento anterior.
Não existe essa tal 'estabilidade do casamento' nem ela deveria ser almejada.
O mundo muda, e você também, seu marido, sua esposa, seu bairro e seus amigos.
A melhor estratégia para salvar um casamento
não é manter uma 'relação estável', mas saber mudar junto.
Todo cônjuge precisa evoluir estudar, aprimorar-se,
interessar-se por coisas que jamais teria pensado em fazer no inicio do casamento.
Você faz isso constantemente no trabalho, porque não fazer na própria família?
É o que seus filhos fazem desde que vieram ao mundo.
Portanto descubra a nova mulher ou o novo homem que vive ao seu lado,
em vez de sair por aí tentando descobrir um novo interessante par.
Tenho certeza que seus filhos os respeitarão pela decisão de se manterem juntos e aprenderão a importante lição de como crescer e evoluir unidos apesar das desavenças.
Brigas e arranca-rabos sempre ocorrerão:
por isso de vez em quando necessário casar-se de novo,
mas tente fazê-lo sempre com o mesmo par.
(Atenção, leitor, aos falsos textos com autoria de Jabor na Net !)
E MAIS...
TEXTO SOBRE ARNALDO JABOR E ENTREVISTA NO PROGRAMA DO JÔ (2007)
http://arte.brasilis.zip.net/arch2008-06-08_2008-06-14.html#2008_06-14_12_13_30-126697123-0
Fotografar o Invisível - Por: Fabrício Carpinejar
TEXTO E IMAGEM: http://somostodosum.ig.com.br/blog/blog.asp?id=9258

Em tempos de imagens instantâneas em celulares, dedique um pouco do seu tempo para fotografar o olfato e colecionar os cheiros da infância. Comece a capturar os códigos do seu mundo. Faça um álbum com a respiração. Antes de clicar, feche os olhos e aperte o pulmão – ele vai disparar o batimento e revelar sua vida.
Você já pensou em fotografar o vento? E que tal fotografar o cheiro do vento?
Suba na árvore de sua infância, durante a época dos frutos. Permaneça sentado no galho, esqueça que sujará a roupa, deixe a luz entrar pelas frestas da copa, a luz vai se desvencilhar das sombras para encontrá-lo. A sensação é que está no mirante de uma igreja, perto de um sino. Um esconderijo santo, sábio. É possível localizar um por um dos pássaros pelos piares. Um está à esquerda, outro à direita. Pode apanhá-los com os ouvidos. Retire uma fruta da paciência das folhas. Não mastigue ainda, alise o veludo da casca no rosto, desfaça o pólen doce pelo lustro da cor, repare o tempo que a fruta demorou até aquele instante.
Feche os olhos, INSPIRE, você fotografou o cheiro do vento.
Pense nos cabelos de sua mulher ao sair do banho, pense devagar como se o cheiro estivesse recém acordando, como se ela estivesse avançando em sua direção, passando perto de você, às vésperas de abraçá-lo. No momento em que você toca sua nuca com a respiração, congele a imagem. Busque guardar o olfato com todas as suas fraquezas.
Feche os olhos, INSPIRE, você fotografou o cheiro do quarto.
Você já pensou em fotografar o cheiro da chuva? Veja as árvores dançando, os sacos de plástico voando como aviõezinhos malucos, as crianças correndo para casa, os relâmpagos ao fundo como lanternas tremulando no rio e no mar. Pense no som dos primeiros ruídos nas telhas, o som das calhas, o som na grama, o som na roupa, o som no balde, cada objeto produz um som diferente com a água, cada objeto é um instrumento com a água, uma orquestra está tocando só para você.
Feche os olhos, INSPIRE, você fotografou o cheiro da chuva.
Você já pensou em fotografar o cheiro da casa de madeira de sua avó? Ela não vive mais, a residência não existe mais? Não há problema. Tente remar de manhã, na neblina, em algum clube. Entre numa canoa, use sua disposição para avançar. Ao se fixar no meio do percurso, no meio do nada, longe das margens, largue os braços e descanse. Sinta sem medo o balançar das tábuas. Lembre o embalo da cadeira de balanço, não? Como se fossem cócegas em sua testa e orelhas, em suas costas. Alguém está o embalando novamente. Da canoa, virá o perfume do carvalho e o cortejo dos grilos e vaga-lumes.
Feche os olhos, INSPIRE, você fotografou o cheiro da casa da avó.
Você já pensou em fotografar o cheiro de sua mãe? Quando pequeno, onde você ficava quando ela o apresentava aos desconhecidos? Preso nas pernas dela, nas saias, certo? Girando entre a perna esquerda e a direita. Brincava de esconde-esconde, com jeito tímido, enquanto ela pedia: "Fala seu nome, diz oi, diz tchau".
Feche os olhos, lembrará do cheiro dos joelhos dela, INSPIRE, você fotografou o cheiro de sua mãe.
Você já pensou em fotografar o cheiro do seu pai? Pense quando ele levantava você lá em cima, e girava e girava, para mostrar que o amor é movimento. Não tire ainda a fotografia, espere descer, devagar. Ele colocará você de volta ao chão.
Feche os olhos na hora de pousar, lembrará do cheiro dos cotovelos dele, INSPIRE, você fotografou o cheiro de seu pai.
Você já pensou em fotografar o cheiro de seu filho? Qual seria o cheiro dele?
De noite, você está contando uma história. Você observa o livro, ele observa sua boca. Você é o livro que ele quer ler. Ele pede para contar mais, você diz que amanhã continua. No beijo de apagar a luz, o cheiro do livro se mistura ao cheiro do pijama dele que se mistura ao cheiro morno da noite.
Feche os olhos no contato com a pele dele, INSPIRE, você fotografou o cheiro de seu filho.
Você já pensou em fotografar o cheiro de uma carta? De sua letra? O cheiro da lareira? O cheiro do primeiro emprego? O cheiro do primeiro amor? Você já pensou em fotografar o cheiro de sua mulher chegando do trabalho? O cheiro do recreio da escola? O cheiro do bilhete que vem junto das flores? O cheiro dos selos da carta de um amigo? O cheiro do estofado do carro da infância? Você já pensou em fotografar o cheiro da ansiedade? O cheiro da fé? Você já fotografou o cheiro das camisas retiradas do varal, o sol ainda na gola? O cheiro da aventura na mata? O cheiro do acampamento? O cheiro da espuma caindo? O cheiro da rede? O cheiro da varanda? O cheiro dos livros nas gavetas, o cheiro dos livros na estante, o cheiro dos livros na cômoda? O cheiro da comida predileta? O cheiro de domingo? O cheiro do restaurante favorito? O cheiro do sofá? Você já pensou que tudo é um cheiro pedindo para ser guardado.
Feche os olhos, INSPIRE, você fotografou o cheiro do mundo.
Por: Fabrício Carpinejar
http://www.fabriciocarpinejar.blogger.com.br