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Terra Blog

Arquivo de: Abril 2008, 17

17.04.08

ESCOLA DA PONTE parte 2

categorias: EDUCAÇÃO EM REDE

(...) continuação do post anterior...

Em 2003, o Ministério da Educação de Portugal encomendou a uma equipe da Universidade de Coimbra uma avaliação da Escola da Ponte. Entre outras conclusões extraídas do relatório de avaliação, ressalta um trabalho estatístico realizado com as notas de pauta atribuídas pelos professores, em cada trimestre dos últimos 20 anos. Isto é, foram comparados os resultados obtidos pelos ex-alunos da Escola da Ponte com as classificações obtidas pelos alunos oriundos de outras 20 escolas que a escola de 5ª série acolheu. Os avaliadores concluíram que os ex-alunos da Ponte obtiveram melhores resultados no currículo de 5ª série que os ex-alunos de outras escolas.

Mas esta constatação - que para os governantes foi decisiva para o apoio que agora disponibilizam ao projeto - não tem para nós nenhum significado. A classificação não é o mais importante.

Como a Escola da Ponte envolve os pais dos alunos no processo educativo?

J. P.Os pais são pessoas inteligentes e desejam o melhor para seus filhos. Quando lhes é explicado o porquê da mudança, compreendem e aceitam a mudança. Quando os pais crescem com o projeto, defendem-no. E, quando muitos pais já são ex-alunos da Ponte, tudo fica mais simples...

Há estudos de mestrado sobre o trabalho que fizemos na relação escola-famílias. Um dos mais importantes dispositivos de intensificação dessa relação é o professor-tutor.

A Ponte é uma escola pública, mas sua racionalidade e prática nada têm a ver com o modelo de escola pública instituído. Contrariamos a lei quando ela se opunha a que fizéssemos dos nossos alunos seres mais sábios, mais felizes e mais pessoas. Transgredimos fundamentando a transgressão. Foi suficiente. Hoje, o Ministério reconhece o elevado valor deste projeto e procura dotá-lo de enquadramento normativo e condições de desenvolvimento. E, logo que seja celebrado o "contrato de autonomia" (o primeiro que será celebrado entre uma escola da rede pública e o estado português), serão os pais a tomar a direção da Escola da Ponte.

O modelo da Escola da Ponte se expandiu por outras unidades do ensino público de Portugal? E nas escolas particulares?

J. P. - Há muitos professores que, após terem visitado a nossa escola, ou nela terem feito estágios, introduziram alterações em suas práticas. Também há escolas do ensino público e escolas particulares (dentro e fora do nosso país) que se inspiraram no modelo da Ponte e desenvolvem projetos muito semelhantes.

http://www.itaucultural.org.br/index.cfm?cd_pagina=2132&cd_materia=1123

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LEIA TAMBÉM A INTERESSANTE ENTREVISTA :

http://www.educacional.com.br/entrevistas/entrevista0043.asp

TRECHO:

INCLUSÃO: (...) Além disso, a Escola da Ponte trabalha com uma pedagogia que inclui crianças portadoras de deficiências no mesmo ambiente?


Há 25 anos, a educação das crianças ditas com necessidades educativas especiais constituía mais um problema dentro do problema. A colocação de crianças com necessidades específicas junto dos ditos normais não era medida suficiente para se fazer o que recentemente se designa por inclusão. A inclusão não se processaria em abstracto, mas passaria por uma gestão diferente de um mesmo currículo, para que os alunos não interiorizassem incapacidades, para que não se vissem cada vez mais negativamente como alunos e depois como pessoas. Frequentemente, sob o rótulo e o estigma da diferença, priva-se a "criança diferente" (ainda que inconscientemente) de experiências que lhe permitiriam ganhar consciência de si como ser social-com-os-outros.
Hoje, em cada grupo há sempre um aluno "especial". Se os professores, por qualquer motivo, em determinado momento, não podem acompanhar directamente o trabalho de uma dessas crianças, logo um colega atento se disponibiliza para a ajudar. O Marco era um menino rotulado de filho de pai incógnito. Sofria por não ter um pai como os outros meninos. O André era um menino rotulado de mongolóide. Sofria de "necessidades educativas especiais", que o isolavam dos outros meninos. Até que, um dia, mudou de escola, foi acolhido num grupo e deixou de ter rótulo. O Marco e os seus amigos já tinham descoberto o valor do trabalho cooperativo. Quando a Ana "foi para outra escola", deixou a Sandrina entregue aos cuidados da Maria do Céu. E o Marco envolvia o André num novelo de atenção que operava milagres no aprender com os outros.
As crianças estavam absorvidas no quotidiano labor de aprender e de aprender a ser. O professor ia passando entre os grupos, disponível para o que fosse preciso. Deteve-se junto àquele, pois havia detectado a presença de estranhos instrumentos mediadores de aprendizagem. Não conteve a curiosidade. Pediu desculpa ao Marco pela interrupção e perguntou que papéis eram aqueles.
"Sabe, professor, ontem estive a ajudar o André a perceber o que era um nome. E ele parece que ficou na mesma..." — respondeu o Marco. "E então?" — insistiu o professor. "Fui p'ra casa a cismar, a cismar... E pensei em fazer umas fichas e fiz as fichas. Trouxe-as hoje e olhe que o André, agora, parece que já percebeu tudo. Não acha?" O professor não conseguiu articular a resposta. Passou a mão na cabeça do Marco. Voltou as costas ao grupo, porque a verdade é que os homens também choram. Citando, de novo, Agostinho da Silva: "Todos vamos ter que ser professores de todos e cada um dos que sabem um pouco mais ensinará os que sabem um pouco menos".

 

SITE OFICIAL DA  ESCOLA DA PONTE:

http://www.eb1-ponte-n1.rcts.pt

IMAGEM: http://www.arikah.net/enciclopedia-portuguese/images/a/a1/Ponte1.JPG

 

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ESCOLA DA PONTE parte 1

categorias: EDUCAÇÃO EM REDE

CONHEÇA A ESCOLA DA PONTE...


Na Vila das Aves, cidade do Porto, Portugal, há uma escola na qual não existem turmas separadas por idade ou escolaridade, nem lugar fixo ou sala de aula. Os alunos, organizados em pequenos grupos com interesse comum, reúnem-se com o professor em grandes galpões e desenvolvem programas de trabalho de 15 dias. Avaliam o que aprendem e formam novos grupos.

 É a Escola da Ponte. Revolucionária, libertária, solidária, serve de referência em todo o mundo quando o assunto é educação. Seu dirigente, o educador José Pacheco, concedeu entrevista exclusiva ao site do Itaú Cultural (...) ~ entrevista feita em Fevereiro 2005


O modelo de ensino da Escola da Ponte é resultado de uma pesquisa pedagógica ou foi mais diretamente fruto da experiência e da prática do ensino?

José Pacheco - Creio que terá acontecido pelas duas vias. Mas precisarei de um tempo de distanciamento crítico, que a minha recente situação de aposentadoria irá permitir, para que uma análise desapaixonada seja feita. Ainda estou muito implicado no trabalho da Ponte. E 30 anos na Escola foi muito tempo, os meus olhos estão viciados.

A necessidade de inovar surgiu por razões comezinhas. Em 1976, a Escola da Ponte defrontava-se com um complexo conjunto de problemas: seu isolamento ante a comunidade de contexto, o isolamento dos professores dentro da escola, sutis ou claras manifestações de exclusão escolar e social, indisciplina, ausência de um verdadeiro projeto e de reflexão crítica sobre as práticas. Estava cativa da hegemonia de metodologias centradas no professor, as instalações eram decrépitas e insalubres. Bastará dizer que o banheiro estava em ruínas e não tinha porta. Satisfazer às necessidades mais elementares constituía um teste de entreajuda: as alunas iam lá fora em pequenos grupos, fazia-se a parede e a porta num círculo humano em torno da necessitada, para gerar alguma intimidade...

Como tenho por hábito comentar, talvez tenha sido por razões tão elementares (tão humanas...) que um dos valores que constituem a matriz axiológica do projeto emergiu: a solidariedade. Haverá mais solidariedade que o fraterno assegurar da necessária intimidade?...

Os projetos partem de pequenos gestos. E só professores que não se interrogam poderiam consentir que as crianças continuassem a (sobre) viver num cotidiano escolar que roçava o limiar da sobrevivência. Quando ficou garantido o conforto dos corpos, o reconforto das almas veio por acréscimo. O projeto cresceu, prosperou, sofreu ataques que visavam destruí-lo, resistiu e consolidou-se.

Desde há muitos anos, e porque nunca ninguém conseguiu explicar-nos por que haver separação entre as classes, nós a eliminamos. Fizemos uma ruptura quase total com a tradicional organização do trabalho escolar. Mas, se o "tradicional" traz bons resultados em outras escolas, ainda bem. Aliás, não dispensamos alguns dos seus contributos. Nem nos deixamos deslumbrar pelas "soluções" encontradas. Apesar de as histórias de vida dos ex-alunos serem feitas de realização pessoal e de excelentes desempenhos acadêmicos nas escolas para onde transitaram, apesar de tudo o que foi construído ao longo de quase três décadas, estamos sempre animados com o "brilho dos inícios"...

O projeto da Escola da Ponte é, de certo modo, um projeto eclético, por adotar contributos de diferentes origens, modelos, autores, correntes... É nossa convicção que um projeto só poderá encontrar sentido e sustentabilidade se for escorado numa permanente interrogação das suas práticas e escapar à vertigem de fundamentalismos pedagógicos. Todo o contributo que faça sentido no hic et nunc do projeto é integrado, avaliado, transformado em função do contexto e seres-autores. Rejeitamos as teorias, propostas metodológicas, os modelos, as "modas", por mais bem embrulhadas e recomendadas que cheguem até nós, se não fizerem sentido. É só isso: o quanto baste de sensibilidade e bom senso.

Portanto, nada foi inventado na Escola da Ponte. Quando percebemos que precisávamos mais de interrogações que de certezas, definimos como objetivos: concretizar uma efetiva diversificação das aprendizagens tendo por referência uma política de direitos humanos que garantisse as mesmas oportunidades educacionais e de realização pessoal para todos; promover a autonomia e a solidariedade; intensificar a cooperação. Consideramos indispensável alterar a organização da escola, interrogar práticas educativas dominantes. E, pelo caminho, encontramos amigos e companheiros (ainda que já desaparecidos como Paulo Freire, Piaget, Dewey, Montessori, Ferrer, Neil, Carl Rogers, Vigotsky, Stenhouse, Agostinho da Silva, Rudolph Steiner, Freinet, e muitos outros).

Existem pesquisas acompanhando o desempenho dos alunos egressos da Escola da Ponte na educação superior e na sua vida profissional?

J. P. - As pesquisas foram feitas, mas os dados não estão trabalhados. Apesar disso, é possível dar uma resposta.

Os ex-alunos são hoje, em grande parte, os pais dos atuais alunos da Ponte. Suas histórias de vida são, na sua maioria, de sucesso, realização pessoal e social, observando-se em muitos uma participação cívica bem acima do comum.

Hoje, a Ponte é uma escola da 1ª à 9ª série, mas, durante 25 anos, foi uma escola até a 4ª série. Os alunos que, ano após ano, saíam para a 5ª série revelaram sempre grande capacidade de adaptação à nova realidade. Conseguiam ser solidários, mas aceitavam as regras da competitividade que eram impostas pela cultura da escola para onde transitavam. Sabiam trabalhar em grupo, mas raramente a nova escola o praticava. Sabiam pesquisar, gerir autonomamente tempos e espaços, planificar e auto-avaliar-se, mas acatavam o ritmo dos toques de campainha, a aplicação de testes iguais para todos, o regime de turma e classe etc...

Claro que a transição entre diferentes escolas produz sempre rupturas traumáticas e desgaste, mas os alunos da Ponte que transitavam para a 5ª série numa outra escola adaptavam-se. Era a nova escola que não se adaptava a esses alunos... Por outro lado, as crianças manifestavam uma espécie de "esquizofrenia", uma "dupla personalidade", pois agiam em conformidade com diferentes regras em diferentes contextos. Seu desenvolvimento sócio-emocional, sócio-moral ou afetivo padecia alguns percalços. E que dizer das aprendizagens do domínio cognitivo?

(...) continua no post seguinte...

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