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É a continuidade de ARTE BRASILIS http://artebrasilis.blog.terra.com.br Uma REVISTA ELETRÔNICA de ARTE, CIÊNCIA, FILOSOFIA, EDUCAÇÃO e CULTURA DE PAZ. artebrasilis@hotmail.com - artebrasilis@bol.com.br

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Arquivo de: Março 2008

31.03.08

MEDIANDO CONFLITOS.PARTE 4 DE 4

categorias: CAMINHOS

(...)

Setor3: O governante é reflexo da educação do seu povo? Como George Bush, por exemplo?
Marshall Rosenberg: Sim. Eu acho que ele é uma pessoa muito simpática e algumas pessoas em volta dele também. Eles estão cometendo impensáveis atos de violência, mas não estão fazendo isso porque são pessoas ruins, mas porque foram educados de uma forma que sugere que estão ajudando os outros agindo dessas formas extremamente violentas e opressivas. Eles têm sido ensinados a falar uma versão do lobo nesta linguagem corporativa, das grandes empresas. Essa é uma das formas verbais mais violentas que existe. Ela define os valores mais preciosos como sendo resumidos em dinheiro, em lucro. Juntar, concentrar lucro e servir Deus. Mas na consciência deles, servir Deus é punir os pecadores. Então, quando você tem pessoas simpáticas que querem ajudar e que receberam esse tipo de educação e as coloca em situação de poder... Nas últimas seis ou sete gerações vemos que os presidentes dos Estados Unidos foram educados nas mesmas instituições. Não só na mesma universidade, mas dentro dela existe um clube em que se reúne um pequeno grupo de pessoas. Todos os presidentes pertenciam a esse mesmo grupo. E esse grupo, pelo menos no meu entendimento, tem cometido uma quantia inarrável de violência no planeta. E o que me apavora é que eu gosto destas pessoas. Elas têm boas intenções.



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Livro: ROSENBERG, Marshall B. Comunicação não-violenta (Agora Editora)

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A boa comunicação é uma das armas mais poderosas, econômicas e de fácil aplicação para enfrentar um mundo violento, cheio de preconceitos e mal-entendidos. Grande parte dos problemas entre casais, pais e filhos, empregados e empregadores, vizinhos, políticos e governantes pode ser amenizada e freqüentemente evitada apenas com... palavras. No livro Comunicação não-violenta, lançado pela Editora Ágora, Marshal B. Rosenberg ensina o leitor a se comunicar corretamente, criando relacionamentos interpessoais baseados em respeito mútuo, compaixão e compreensão.

Se libertar dos condicionamentos e dos efeitos de experiências passadas; transformar padrões de pensamento que conduzem a discussões, raiva e depressão; resolver os conflitos com os outros pacificamente são algumas das técnicas ensinadas por Rosenberg, que é o criador do método de comunicação não-violenta.

Em 1984, o doutor Rosenberg fundou, na Califórnia, o Center for Nonviolent Comunication (CNVC), que se transformou em uma organização sem fins lucrativos, com dezenas de pessoas habilitadas a dar treinamentos em trinta países, entre eles o Brasil.

O trabalho tem sido realizado com educadores, profissionais da área de saúde, mediadores, empresários, prisioneiros e guardas, policiais, militares, membros do clero e funcionários públicos.

O autor introduziu programas de paz em regiões assoladas por guerras, como Sérvia e Croácia, Burundi e Sri Lanka, e as técnicas da CNV estão sendo ensinadas em escolas Iugoslávia e de Israel.

link para consultas: CNV Brasil – www.cnvbrasil.org

FONTE da  entrevista: http://www.setor3.com.br/senac2/calandra.nsf/0/22E7DD244961BAC3832572220049A118?OpenDocument&pub=T&proj=Setor3

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Nota - ATUALIZAÇÃO DE DADOS:

1) Marshall Rosenberg atua na CNV desde 1964; 2) A aplicação dos princípios de seu trabalho encontra-se em 62 países, atualmente; 3) Dominic Barter é diretor do Projeto de Língua Portuguesa para o Centro Internacional de Comunicação Não-Violenta. Atualmente, também é diretor do Projeto de Justiça Restaurativa (JR) e usa a CNV para nortear os primeiros projetos de JR no Brasil.

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MEDIANDO CONFLITOS.PARTE 3 DE 4

categorias: CAMINHOS

(...)

Setor3: Qual a estrutura do CNV, como funciona?
Marshall Rosenberg: Em cada país identificamos as pessoas que ressoam com esta proposta, que tenham a paixão para fazer com que a CNV seja disponibilizada para aquelas pessoas que têm maior possibilidade de transformar a cultura. Por exemplo, em Israel e na Palestina, os grupos acham que vão contribuir melhor para a paz educando de forma radicalmente diferente a próxima geração por isso tem um foco na educação. Os israelenses também queriam o envolvimento da polícia. Trabalhei com a polícia e as escolas. Então eu identifico as pessoas em cada país que tenham esta consciência e trabalho com cada país, cada grupo, para investigarmos juntos onde a gente acredita que a CNV pode melhor contribuir para o país neste momento. O meu preconceito é como se chega na mídia, a imprensa é o caminho. Estou trabalhando muito neste momento em como divulgar para o máximo de pessoas possíveis uma outra mídia, diferente da maneira como educamos as crianças nos Estados Unidos. Como a gente pode chegar às pessoas que usam mais a mídia em horários estratégicos quando, por exemplo, à noite, na televisão, em 70% dos programas o herói é o ladrão ou o assassino. E esse momento de violência ou corrupção acontece exatamente no clímax, no ponto alto, e todo mundo quer ver as pessoas más sendo punidas. Aqui, o Dominic está trabalhando duro em muitas áreas, mais particularmente na área da justiça. Para mostrar para as pessoas que na Febem, nos morros, com a polícia, no fórum, nos presídio que há formas muito mais eficazes e gostosas de lidar com conflitos do que as maneiras que eles estão escolhendo atualmente. Então Dominic organiza e trabalha com um grupo de juízes abertos a estas mudanças, fazendo com que a gente possa entrar em presídios e unidades da Febem onde há uma grande curiosidade sobre essas possibilidades.

Setor3: A mídia, os veículos de massa, divulgam com freqüência as notícias violentas. Como poderia continuar a noticiar esses fatos, mas de forma não-violenta, com uma linguagem não-violenta?
Marshall Rosenberg: A gente segue esta linha da CNV de forma que eles enxergam essa mudança não como sendo meramente uma idéia bonita, mas algo que atende melhor as necessidades deles. Assim eles vão estar mais abertos. Então, quando você apresenta uma matéria, você não fala que certo grupo é mau, são inimigos pelo que estão fazendo. Muitas vezes as pessoas procuram segurança e enxergam pessoas fazendo coisas que tiram esse senso de segurança. Colocam-nos em presídios construídos à base de punição, com a idéia de que através da punição o comportamento deles vai mudar. Nós sabemos que isso não funciona. Duas pessoas com o mesmo comportamento, um vai para um presídio e o outro não. Muitas pesquisas demonstram que a pessoa que foi para o presídio tem muito mais probabilidade de reincidir. Vamos fazer uma matéria sobre esses presídios e essa estatística, revelando uma forma que iria atender melhor às necessidades da sociedade, do preso e das pessoas que trabalham no presídio. A última vez que eu vim ao Brasil, Dominic organizou para que fossemos à Febem numa situação ao vivo, uma ameaça de matar uma guarda. Eles colocaram o jovem na solitária. Comecei a trabalhar com ele e depois conversei com a direção do presídio. Não falei pra eles que estavam fazendo uma coisa errada ao colocá-lo na solitária. Ofereci a eles uma opção que acho que vai atender melhor as necessidades deles, por exemplo, de segurança. Mas isso requer muita abertura para uma proposição radicalmente diferente. Somos pessoas que já vivem há muito tempo numa cultura em que os bonzinhos punem os maus.

Setor3: Qual a mensagem que pretende passar às pessoas que vão te ouvir aqui no Brasil?
Marshall Rosenberg: Desde que as pessoas estejam interessadas em criar paz, quero dialogar com elas sobre como, por exemplo, nós podemos fundar escolas ou transformar escolas que já existem. Por exemplo, lá em Israel, quando fizemos uma parceria com a Unesco, falamos para eles que nas escolas estruturadas com a educação não-violenta a violência é muito menor e também o aproveitamento acadêmico é mais alto. Gostaríamos de criar tanto em Israel quanto na Palestina escolas que tenham estas características, você gostaria de apoiar? Eles falaram: sim, mas nós temos muitos problemas nas escolas em que a Unesco trabalha na Europa também. Que tal se apoiássemos não somente as cinco escolas em Israel e as cinco na Palestina, mas, em troca, você implementa o mesmo programa em dois países na Europa. Pode ser? Então, de repente, tínhamos o projeto de fundar cinco escolas em Israel, cinco na Palestina, cinco na Croácia e cinco na Sérvia. Gostaram tanto dos resultados deste projeto que agora, com a organização da Unesco, foi capacitado um grupo na Sérvia que chegou a todas as escolas de Ensino Médio do país. Em cada escola tem um professor capacitado para passar isso a outras pessoas, chegando a milhares de alunos. Macedônia, um país vizinho, viu estas mudanças acontecendo nas escolas na Sérvia. Foram lá e pediram que professores destas escolas fossem para a Macedônia. Agora temos uma equipe maravilhosa na Macedônia que não foi capacitada por mim, mas pelas pessoas da Sérvia. É isso que eu espero que aconteça aqui. Que a gente possa mostrar para as pessoas essa possibilidade de multiplicação, na esperança que elas tenham interesse em desenvolver escolas ativas. Também quero apoiar o trabalho que o Dominic está fazendo no sistema de justiça. Podemos mostrar para eles como isso pode ajudá-los a realizarem suas próprias metas para a década da paz.

Setor3: Estamos na Década da Paz. Algo está mudando de fato neste sentido?
Marshall Rosenberg: A junção sinérgica de uma massa crítica de pessoas que enxergam a real possibilidade de um outro caminho e que tem como meta atender as necessidades de todos, a inclusão de todos de forma pacífica, já está conseguindo um resultado incrível em condições dificílimas. Na medida que esses números comecem a aumentar, vamos começar a ver mudanças radicais acontecendo no planeta em termos de Cultura de Paz. Recentemente estava lendo este livro, The Caos Point. Conheço bem este húngaro, Ervin Laszlo, é uma das pessoas que eu mais respeito que responde à sua pergunta. O que precisa acontecer, o que é possível acontecer para fazer com que esse mundo mude radicalmente? Ele tem um conhecimento profundo. Não é só um pensamento teórico, mas entende na prática e diz que uma das coisas que vai nos ajudar é o ponto de caos que está rapidamente se aproximando. Muitas vezes são experiências intensas de dor e de caos que estimulam e despertam nas pessoas a necessidade de agir positivamente a favor da paz. Ele sugere que as mudanças que precisamos fazer para evitar um colapso global precisam começar a acontecer nos próximos sete anos. Quando as pessoas falam isso penso, ah está exagerando. Mas esse homem é calmo e científico. Sete anos a partir de agora. Esse homem fundou o Clube de Budapeste. Há 20 anos, ele organiza pensadores do mundo todo, pessoas que estimo muito, pessoas do campo artístico, político, na mídia. Ele chama essas reuniões de o Clube de Budapeste. Trabalham tentando entender a crise que está chegando e como podemos responder. O meio-ambiente está sob ameaça, estamos criando armas que podem aniquilar a raça humana. É importante que a gente comece a fazer alguma coisa rapidamente. E ele diz que esta mudança começa com a mudança da nossa consciência. Uma consciência que nos dê outras maneiras de lidar com a dor no lugar da punição, que nos ajude a entender a necessidade de compreender as pessoas que estão criando essa violência. Não somente de permitir, a gente entende então vai lá, mas que aumenta a nossa capacidade de nos conectar com elas de uma forma transformativa. E ele acredita, como nós da rede CNV acreditamos – aqueles de nós que enxergam um outro caminho –, que, ao invés de agir da mesma forma para reprimir ou não fazer nada por que o problema é grande demais e não adianta, precisamos rapidamente nos unir para aumentar nosso poder de mudar as coisas.

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MEDIANDO CONFLITOS.PARTE 2 DE 4

categorias: CAMINHOS

(...)

Setor3: Esse movimento pela paz é um movimento ativo ou passivo?
Marshall Rosenberg: Muito ativo. A expressão 'não-violência' era uma expressão que Gandhi não gostava muito. Para ele parecia passividade. Descrevia o que as pessoas não eram. Mas no uso que ele fez disso, e que eu peguei emprestado para criar a CNV, não era passividade. Ele estava conversando sobre junção de poderes para transformar o sistema. Poder que semeia conexões humanas. Algo nada passivo. As pessoas com quem trabalho no mundo todo não estão contentes com o sistema, querem mudança; rapidamente. Eles querem algo que aumente seu poder, sua capacidade, sua competência de agir a favor desta mudança.

Setor3: Para falar de paz e o que está por trás dela você precisa entender o conflito e porque as pessoas agem de forma violenta. Pelo que viu e aprendeu nestes anos, o que gera violência e conflito?
Marshall Rosenberg: A educação. A educação desenhada a ensinar as pessoas a se submeterem às estruturas de dominação. Há um grupo de estudiosos que dizem que começamos a organizar as nossas sociedades desta forma há mais ou menos oito mil anos. Começamos a pensar que algumas pessoas são superiores a outras, umas inferiores a outras. E que aqueles de cima têm o direito de mandar e controlar. Alguns destes superiores são chamados reis, outros são chamados professores, padres, pais. E o trabalho destas pessoas é controlar o grupo inferior. Isso é feito melhor através de um sistema de punição e de recompensas. E essa é a educação que eu acredito que contribua com a violência no planeta. Infelizmente, aproximadamente 80% das pessoas no planeta já passaram por uma doutrinação que ensina que a violência é natural e necessária. Se queremos viver em um planeta harmonioso, você, eu e outras pessoas temos que nos juntar e transformar essa forma de pensar, agir e comunicar que atualmente prevalece no planeta.

Setor3: O que significa, na prática, ser um mediador de conflitos?
Marshall Rosenberg: Quando eu encontro pessoas em situação de conflito - lido com conflitos em todos os níveis: maridos e mulheres; tribos na África em guerra civis... Uma vez estive na Nigéria junto com os chefes de duas tribos, uma cristã e uma mulçumana. Na aldeia deles, 40% da população tinha sido morta internamente em um ano. Todas as casas mulçumanas tinham sido destruídas. Então você pergunta como é que eu lido com eles... Eu falei para os 13 chefes de um lado e os 13 do outro: tenho certeza de que este conflito pode ser resolvido sem continuar com a violência, a partir do momento em que a gente puder ouvir claramente as necessidades do outro. A minha experiência é de que quando podemos viabilizar as necessidades dos dois grupos, podemos buscar estratégias para atender as necessidades de todos. Então perguntei: quem gostaria de começar a expressar suas necessidades? Eu podia prever o problema. Eles tinham recebido uma formação parecida com a minha. Durante 21 anos, freqüentei a escola e apenas uma única vez consigo lembrar de alguém perguntando quais eram as minhas necessidades. Fiz meu PHD sabendo quais as respostas que meus superiores achavam ser certas. Era um jogo chato, entediante, mas eu fiz bem. Recebi minha recompensa: sou DOUTOR Marshall hoje. Mas nunca descobri o que estava vivo dentro de mim, o que eu estava precisando. Então não me surpreendi ao perguntar aos chefes das tribos quais eram suas necessidades e o chefe do lado cristão respondeu assim, gritando: vocês, mulçumanos são assassinos! Logo, do lado mulçumano: Você tentam nos dominar! Foi assim que eu fui educado, nunca soube descrever minhas necessidades. Mas aprendi que existe neste planeta pessoas certas, pessoas erradas, pessoas boas e más e como distingui-las. E tenho visto que esta linguagem contribui para a violência, porque cria um modo de justiça retributiva, ou seja, você vai ser julgado de acordo com aquilo que merece. Sabendo disso, os dois lados estão falando uma linguagem em que constantemente sugerem – é implícito – que o outro lado precisa ser punido para aprender a agir de outra forma. Então traduzi as mensagens que eles ofereceram um ao outro desta linguagem de julgamentos a uma linguagem de necessidades. Nosso treinamento se baseia na presunção de que toda a crítica é uma expressão trágica de uma necessidade não atendida. Então traduzindo o 'vocês são um bando de assassinos', disse para o chefe: a sua necessidade é confiar que vai haver mecanismos nesta comunidade para lidar com o conflito sem recorrer à violência. Ele disse: foi exatamente o que eu disse. Mas não foram exatamente as palavras que ele usou. Então perguntei para um membro da tribo mulçumana: algum de vocês pode dizer o que ouviu o outro dizer? Quando a pessoa tem preconceitos acerca de um outro, mesmo se a necessidade for verbalizada, tem dificuldade em ouvir. Estará vendo antes seu próprio diagnóstico sobre o outro e isso bloqueia. Então não era uma surpresa para mim quando pedi para ele resumir as necessidades do outro, ele falar: se você não gosta de assassinos, então porque você matou meu filho?
Não foi fácil fazer com que eles aprendessem a falar uma linguagem de vida e ouvissem o outro. Finalmente consegui fazer com que cada lado conseguisse ouvir pelo menos uma necessidade do outro. Neste momento um dos chefes virou para mim e disse: Marshall, se nós aprendermos a nos comunicar e nos relacionar da forma que você está mostrando, não vai ser mais necessário a gente se bater. Esse é o nosso processo, a gente demonstra um outro caminho, um caminho mais sincero. Mostramos que cada análise que implica em erro é uma expressão trágica das necessidades do falante. Se você rotula seu filho 'você é preguiçoso!', por que ele não quer arrumar as coisas no quarto, isso não o motiva a querer limpar. Ao invés disso, expresse sua necessidade. Explique que seria extremamente importante para você receber apoio e cuidar do bem-estar mínimo da casa. Mas os pais já foram doutrinados com essa forma de pensar, os professores, os padres, os políticos. Então você e eu temos uma tarefa grande à frente. De transformar esta forma de pensar. Mas temos uma vantagem. O que gostaríamos que as pessoas fizessem é mais natural. Não mistura aquilo que é natural com aquilo que é normal ou habitual. Há séculos, as pessoas foram ensinadas e doutrinadas a saber como punir os outros. O que nós estamos oferecendo pode até ser perturbador no início, algumas pessoas confundem isso com uma atitude passiva perante a injustiça e a violência. Se você não pune a criança você está semeando a impunidade, se você não pune os terroristas eles vão ficar mais violentos. Então temos uma forma radicalmente diferente de ver o mundo e é uma tarefa razoável.

Setor3: O Centro de Comunicação Não-Violenta nasceu desta vontade de somar?
Marshall Rosenberg: Sim, de nos apoiar a voltar a viver, voltar à vida. Quando a gente nasceu somente falava a comunicação não-violenta. Quando acordamos no meio da noite com fome não dissemos a nossos pais: como você pôde ser tão insensível de me colocarem pra dormir com fome, levanta, caramba, e me dá comida agora! Não. Usávamos uma linguagem da vida, que traz à atenção das pessoas uma necessidade nossa que não estava sendo atendida. Portanto, não podemos falar que a CNV tem uma linguagem nova. É uma linguagem natural da qual nos desconectamos em algum momento.

(CONTINUA)

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MEDIANDO CONFLITOS.PARTE 1 DE 4

categorias: CAMINHOS

Ícone da Cultura de Paz e fundador do Centro de Comunicação Não-Violenta, Marshall Rosenberg, relata vivência como mediador de conflitos


Juliana Rocha Barroso
PARA SETOR 3 - http://www.setor3.com.br


A Assembléia Geral das Nações Unidas declarou o período 2001-2010 como a "Década Internacional da Cultura de Paz e Não-Violência para as Crianças do Mundo". Mas o que de fato tem mudado neste sentido? Qual o significado de paz? "A paz não é um processo passivo: a humanidade deve esforçar-se por ela, promovê-la e administrá-la", declara a Unesco.

Indivíduos, instituições e estados estão somando forças nesse movimento. No Brasil, um exemplo foi a criação do Comitê Paulista para a Década da Cultura de Paz - um programa da UNESCO.


 Mediador de conflitos com mais de 20 anos de prática, um dos alicerces da Cultura de Paz, o doutor em psicologia clínica, Marshall Rosenberg fundou, em 1984, o Centro de Comunicação Não-Violenta (CNV), que capacita e promove projetos de aplicação dos princípios de seu trabalho em mais de 50 países. É autor de nove livros, entre eles Comunicação Não-Violenta, que foi lançado em português durante o fórum temático.

O CNV tem projetos geográficos e temáticos. Nos temáticos, pessoas trabalham especificamente na área de transformação social, de criação de filhos, de justiça restaurativa entre outros. E geograficamente, os projetos focam em países em que a situação e as possibilidades são mais intensas.

 Marshall usa a imagem da girafa para representar a Comunicação Não-Violenta. "A girafa é um mamífero terrestre com o maior coração, vive sua vida com gentileza e graça e tem um pescoço muito comprido para enxergar a longo prazo." A girafa é usada para simbolizar as formas de comunicar que semeiam a compreensão e a parceria. Enquanto o lobo simboliza a forma como fomos educados a nos comunicar e nos organizar socialmente. "Vou pegar o que é meu e os outros que se virem. A girafa revela que o lobo não é mau é só uma pessoa com problema de comunicação."


Em entrevista ao Setor3, Rosenberg conta sua experiência, as dificuldades e os aliados que conquistou nesta caminhada pelo mundo, entre eles Dominic Barter, fundador da CNVBrasil, que acompanhou a entrevista e declarou:: "O Brasil tem uma situação muito difícil, mas uma potencialidade fenomenal para a Cultura de Paz. Nossa rede estabelece relações de parceria com grupos que estão trabalhando ativamente para melhor atender essas necessidades básicas: segurança, paz, moradia, comida, educação, respeito, autonomia."

Setor3: Qual sua idade e onde nasceu?
Marshall Rosenberg: Eu tenho nove anos, eu acredito que cada pessoa tem o direito de ter a idade que gostaria de ter. Então sempre digo que tenho nove anos. Não é muito fácil convencer a minha mulher. Ela diz que tenho 72. A gente também discute essa questão: eu digo que ainda não nasci. Cresci no bairro que aparece no filme 8 milhas, em Detroit. Nasci em Ohio, mas quando era criança minha família se mudou para Detroit.

Setor3: Trabalhar com comunicação não-violência, cultura de paz. Por quê?
Marshall Rosenberg: Crescendo naquele bairro. Me deu muito medo. Eu tinha 8, 9 anos. No primeiro dia em que fui para escola e alguém ouviu meu segundo nome eles estavam me esperando depois da aula. E perguntaram: você é judeu? E aí eles pularam em cima de mim e começaram a me bater. Vi muito conflito racial e me deu medo de crescer num mundo assim. Como criança, vendo um querer machucar o outro por causa de cor de pele, por causa do nome. A partir daquela idade e até hoje nada me interessa mais do que perguntar como é que as pessoas são educadas, doutrinas a agir dessa forma, criar essas violências e como podemos educar, então, as pessoas para que fiquem parecidas com meu tio. Ele sempre contribuiu para o bem estar das outras pessoas. Eu não vi ele agredir por causa de nome ou cor de pele. Minha vida toda eu tive interesse nisso. Como é que algumas pessoas gostam de contribuir para o bem-estar dos outros, enquanto outras querem machucar as pessoas por serem diferentes?

Setor3: De pensar nesses conflitos a fazer algo, o que aconteceu?
Marshall Rosenberg: Eu queria saber o que fazer perante essa situação. Um dia voltei pra casa depois de levar uma surra e um outro tio meu, muito simpático, tentou me ajudar do seu jeito e explicou: você tem que bater primeiro nos outros. Então, por alguns anos tentei fazer isso. Eu aprendi a ser violento. Mas aí fui abençoado de começar a entender formas mais poderosas de lidar com a violência. Via pessoas como o meu tio, minha avó que tinham outra maneira de lidar com a agressão. Ninguém estava querendo bater neles, maltratá-los. Então eu estava vendo estes dois mundos. Este mundo em que as pessoas estão querendo se machucar por causa das suas diferenças, um mundo em que a sobrevivência depende de ser mais agressivo. E do outro, pessoas que se importam com as outras e querem contribuir para o seu bem-estar. Isso me impactou profundamente e decidi lá o que queria fazer da minha vida. Eu queria pesquisar e aprender como transformar essa violência, fazer dela uma forma pacífica de conviver, como ela podia ser prevenida. Nos últimos 60 anos me questiono sobre isso, o que a gente aprende que faz as nossas ações violentas. E o que apóia pessoas como meu tio e minha avó a agirem de uma forma diferente. Estudei isso durante anos e comecei a enxergar as diferenças de uma forma muito clara. Então nos últimos 40 anos eu me importo com como podemos distribuir esta outra forma de conviver para o máximo número de pessoas possíveis no planeta. Tenho achado pessoas como eu, que estão dispostas a fazer muito trabalho para mostrar para as outras pessoas que tem outra maneira de agir que é mais divertida, mais legal. No planeta todo, agora em mais de 65 países, eu encontro pessoas como Dominic para descobrir como a gente pode pensar juntos um novo caminho.

imagens: http://www.basileia.org/mbr4_c_2x3_300.jpg/mbr4_c_2x3_300-full.jpg - http://qwe.blogs.sapo.pt/arquivo/095-girafa.JPG

 (CONTINUA)

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COMUNICAÇÃO NÃO-VIOLENTA

categorias: CAMINHOS

A ''Comunicação Não-Violenta'' (CNV) é um modelo desenvolvido por Marshall Rosenberg que busca que os povos se comuniquem de maneira eficaz e com empatia. Enfatiza a importância de expressar com observações, sentimentos, necessidades e ordens de clareza uns aos outros, de maneira que evitem uma linguagem classificatória que rotule ou enquadre os interlocutores ou terceiros.

Aqueles que usam uma comunicação não-violenta (chamada também de "comunicação empática") consideram que todas as ações estão originadas numa tentativa de satisfazer necessidades humanas, mas tentativas de fazê-la evitando o uso do medo, da falha, da vergonha, da acusação, da coerção ou das ameaças. O ideal da CNV é que para ter necessidades, desejos, anseios, esperanças não sejam satisfeitos às custas de outra pessoa. Um princípio-chave da comunicação não-violenta é a capacidade de se expressar sem usar julgamentos de "bom" ou "mau", do que está certo ou errado, porque é essa a razão do acento em expressar sentimentos e necessidades é posta, em vez de críticas ou juízos de valor.

Rosenberg, como psicólogo clínico de formação, aplicou o modelo de comunicação não-violenta em programas da paz em Ruanda, Burundi, Nigéria, Malásia, Indonésia, Sri Lanka, Oriente Médio, Sérvia, Croácia e Irlanda. A teoria tem muito em comum com conceitos usados dentro da mediação e definição dos conflitos e é usada por alguns mediadores em seu trabalho.

Rosenberg escolheu a comunicação conhecida como "não-violenta" para falar aproximadamente da filosofia de Mohandas Gandhi do ahimsa (ou não-violência). Não obstante, ao contrário de Gandhi, Rosenberg aprovava o uso defensivo da força - para evitar feridas, mas não com sentido punitivo, ou seja, uma força aplicada com a intenção punir ou machucar alguém por um último fato. Rosenberg afirma que esse desejo de punir e o uso de medidas punitivas existe somente nas culturas que têm visões moralistas do mundo, que usam as categorias de bom e mau. Ele diz que os antropólogos descobriram culturas em muitas partes do mundo em que a idéia de que alguém é "mau" não faz nenhum sentido e que tais culturas tendem a ser pacíficas. fonte wikipédia


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